As 30 faces da misoginia

“Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”.

Quantas vezes nos foi negado o direito de dizer “não”? Quantas vezes iremos ter que dizer “não”? Com quantos “nãos” se fazem um estupro? Com quantos homens se fazem um estupro?

Certamente, depois do caso de estupro que aconteceu no bairro de Praça Seca no Rio De Janeiro, onde 30 homens estupraram uma adolescente, viver é uma tarefa difícil para as mulheres brasileiras. Falar sobre estupro é falar de uma cultura que perpetua e instiga comportamentos de ódio à mulher, de negação da existência da mulher enquanto uma pessoa dotada de subjetividades e vontades e, acima de tudo, é silenciamento e invisibilidade.

Falar de estupro é falar de homens, sim. É falar de experiências que afetam as mulheres todos os dias através de padrões de comportamento (re)produzidos por homens. O que precisamos falar é desde o xingamento na rua até uma violência física brutal, como o estupro. Todas as especificidades da violência contra mulher atuam de uma maneira tão bem elaborada e intricada que um estupro brutal é posto em dúvida e em questionamento por homens nas redes sociais, um comentário de legitimação da violência contra mulher não está muito longe do passo para cometer a violência contra mulher. Ideias não andam sozinhas, existem fatos que as impulsionam e ações que delas resultam.

Falar de estupro é falar de negação do outro e do processo de desumanização dos corpos femininos, que na cultura do estupro, são reduzidos a objetos. Nós, feministas, estamos falando de uma sociedade onde as mulheres são destinadas e ensinadas a dar prazer aos homens, onde são levadas a iniciar sua sexualidade desde cedo, onde a nossa sexualidade é (até nos discursos de liberdade sexual) pautada à partir do que se diz respeito ao homem, onde a finalidade da existência feminina é aquilo que ela pode contribuir para a felicidade masculina. Contudo, essa felicidade masculina é a negação da nossa existência, da nossa felicidade, das nossas vontades, dos nossos sonhos, dos nossos desejos e dos nossos sentimentos. Vivemos em uma sociedade onde nos negaram o direito de negar, o direito de existir enquanto sujeitas humanas e não objetos.

Tudo isso parece muito aos olhos de alguns e, parece exagero, aos olhos de muitos. Mas perguntamos, especialmente aos homens, como trinta homens estupraram uma adolescente? Seriam trinta homens, todos doentes? Uma mulher é estuprada a cada três horas no Brasil, isso significa oito estupros por dia, duzentos e quarenta estupros por mês e, em média, dois mil oitocentos e oitenta estupros por ano! Seriam todos esses homens doentes? E quando vamos falar dos casos não notificados, o número aumenta. E quando vamos falar das minúcias de como a cultura do estupro afeta a vida das mulheres, os casos se multiplicam. Você pararia de transar se uma mulher dissesse no meio do sexo, “não”? Você ficaria com raiva? Você entenderia? É disso que estamos falando, nós estamos falando de como a cultura do estupro está presente em cada detalhe do comportamento masculino. Estamos falando do seu pornô “gang bang”, por exemplo. Você vai deixar de assisti-lo? O quanto você está disposto a abrir mão para acabar com a cultura de estupro? Você está disposto a abrir mão dos seus espaços de poder?

O que fazer, é o que nós feministas estamos todos os dias buscando, mas nós sabemos que deixar de estar na luta nunca nos foi uma opção, porque nós somos estupradas e violentadas todos os dias. Viver com isso é uma luta. Nós desejamos muita força as mulheres vítimas de violência de gênero e da cultura do estupro, continuaremos lutando pela transformação radical das estruturas da sociedade. Continuaremos para que um dia o nosso “não” seja respeitado, para que um dia ele não precise ser evocado apenas em palavras, mas que já esteja subentendido devido à compreensão da existência do outro.

Núcleo Feminista Lélia Gonzalez
Coletivo Quilombo

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Os Limites da Inclusão Social – Por Yuri Brito*

OS LIMITES DA INCLUSÃO SOCIAL
*Por Yuri Brito

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Já é de conhecimento do mundo mineral que, nos últimos 13 anos, dezenas de milhões de pessoas saíram da extrema pobreza. Pra quem não consegue apreender a brutalidade sutil dessa afirmação, significa que dezenas de milhões de pessoas passavam fome – veja, não é “sentiam fome”, é passavam fome, tipo, dias, semanas, meses, uma vida inteira, sem uma refeição decente -, não tinham onde dormir, não tinham um documento sequer – e por isso não podiam ter trabalho formal, votar, firmar um contrato de aluguel, pedir um empréstimo, pedir socorro ao Estado.

Essas dezenas de milhões de pessoas passaram a comer, trabalhar, morar, ter documentos, votar, aliás, isso é importante pra entender por que os partidos que se lixavam pra esse pessoal não ganham mais eleições nacionais no Brasil e, pra acessar o poder político do governo central, vivem de chantagens e golpes de Estado. E, talvez o mais precioso, uma parte significativa dessas pessoas viu seus filhos e filhas acessarem a escola e, alguns,a universidade: os primeiros de sua família a entrarem na universidade. E uma parte significativa desses filhos e filhas formulou – isso, formulou, não “adotou” – novas linguagens, seja na reivenção da fala da favela, seja na sua mescla com o juridiquês, mediquês, sociologuês, antropologuês e outras falas da academia, mudou seu jeito de se vestir, os ambientes que freqüenta.

A esse processo emocionante, que enche meus olhos de lágrimas, chamam de INCLUSÃO SOCIAL. A maior da história do nosso país. Uma das maiores da história do planeta.

Eu não faço parte desse processo. Explico, resumindo: minha família passou por um processo de ascensão social uma geração antes de mim. E por isso, totalmente diferente deste fenômeno atual. Meus avós, quase todos analfabetos, todos vindos de pequenas comunidades rurais que vocês nunca ouviram falar, parte deles migrantes, trabalhadores rurais, um deles uma pessoa com deficiência física e cadeirante, do qual minha mãe cuidou desde a infância, até sua morte prematura, muito antes de eu nascer.

Meu pai, particularmente, foi para a “cidade” estudar com 10 anos de idade, morando numa pensão, e foi o acesso a educação formal que garantiu a ele a oportunidade de transformar em permanente o ganho da vida inteira do meu avô paterno, que tinha ascendido socialmente por ter aprendido a ler, escrever e fazer conta, além de ser extremamente honesto e trabalhador, num lugar onde quase ninguém sabia fazer essas operações. Meu pai cursou Administração (e depois Direito) numa Universidade privada que iria falir, mas que, pela luta dos estudantes da época, foi estatizada e se tornou a Universidade Estadual de Santa Cruz. E passou num concurso público, no qual que se inscreveu no dia em que foi buscar seu diploma.

Assim, tive uma vida muito melhor que a de meus pais e avós. Eles eram do tempo que precisava de muita, muita sorte pra subir na vida. O que aconteceu com eles era como ganhar na loteria.

Mas uma coisa me aproxima dessa geração que arrombou as portas das universidades. Eu sou negro.

Eu descobri isso quando tinha 11 anos e resolvi deixar meu cabelo crescer. E ninguém me tratou com a mesma deferência que o meu querido amigo Daniel, ruivo, simpático, charmoso, atlético e até hoje quase um galã de novela. E branco.

Por um tempo eu achei que a questão social me afastava mais dessa geração do que a questão racial me aproximava. OK que as vezes a polícia ou seguranças me seguiam, perguntavam pra pessoas brancas que estavam comigo se “estava tudo bem”. OK que já fui atacado por pessoas num carro que tentaram me arrastar pelo cabelo só por que, bem, se eu tenho o cabelo desse jeito eu devo merecer. OK que passei o ensino médio inteiro como sendo um dos caras mais esquisitões do colégio por vários motivos mas, curiosamente, isso se materializava quase exclusivamente em comentários, brincadeiras e – o meu limite da paciência – o toque no meu cabelo.

Mas tudo isso parecia pouco com a violência brutal a que estavam submetidos meus irmãos e irmãs de cor que ainda lutavam para ascender socialmente. Minha cidade, no interior da Bahia, um ano depois que fui embora de lá, ganhou o “prêmio” de cidade mais perigosa para adolescentes do Brasil. Adivinhem: negros. Mortos aos montes. Eu não fui ameaçado por isso – ou pelo menos acho que não fui. E é disso que estamos falando quando falamos de racismo, e isso é o mais importante que tem pra se falar. Ninguém ascende socialmente se for morto, tiver seus pais, cônjuges e filhos mortos.

Ainda assim… isso não me fez branco. E o mundo me lembrou e lembra todos os dias disso. O mundo me lembrou disso hoje. De um jeito simples – não foi nem de longe o racismo que mais me doeu na vida. Mas me incendiou uma reflexão que preciso compartilhar.

Lá estava eu pagando uma conta de cartão numa loja de departamentos, num shopping de Salvador que resolveu se renovar pra ser mais chique. Mais arrumado do que costumo andar, de calça, tênis e uma camisa do coletivo que faço parte, Quilombo. E chega uma senhora, loira, uns 50 ou 60 anos, e, ignorando completamente minha presença, pergunta para a atendente se o caixa está livre.

Primeiro, não achei que ela estava falando com a moça que simpaticamente me atendia. Até ela dizer “Não, moça, to atendendo ele” e ela se virar e ir embora de cara amarrada. Chocado, só pude dizer a atendente: pois é, só ela tem dinheiro pra comprar aqui. Pelo visto eu não posso ter.

É disso que quero falar, aliás: a inclusão social tem limite, que eu conheço muito bem, na minha vida toda. Ela não impediu que continuassem matando pretos nas favelas. Mas, além disso, ela tem um limite na sua própria natureza.

É lógico que ter dinheiro no bolso faz toda a diferença no nosso mundo. Abre portas, oportunidades, nos tira do sufoco da miséria pra comer carne, feijão e arroz ao invés de ovo e farinha. Mas não nos faz, nem nunca nos fará, iguais aos brancos. Primeiro, por que dinheiro não é capital. Capital é poder e dinheiro não. Mas não estou falando de economia – embora isso seja importante também.

Não nos fará por que o mundo do dinheiro, do consumo, do open-bar e all-inclusive, do camarote e do acesso pago, das roupas bacanas, do cinema, dos livros, da intelectualidade, dos cafés gostosinhos, dos restaurantes arrumadinhos, das repartições públicas, da docência universitária, da pesquisa científica, do poder político, tudo isso é do mundo social, mas foi feito pra branco ocupar. Não é mentalidade individual de quem está lá, apenas. É uma mentalidade institucional, que organiza as pessoas para pensarem e agirem assim, negando direitos, serviços e acesso com base no fenótipo e na ascendência familiar.

O dinheiro não compra as instituições. Ou melhor, compra, se você for branco. Por que se você for negro, vai ter de lidar com o dilema que eu, as portas de me formar, vivo: será que vou ter de cortar o meu cabelo, elemento definidor da minha identidade, pra poder passar numa banca de mestrado, numa entrevista de emprego ou numa seleção de concurso pra docente universitário? Vou ter de pagar um preço que é, para minha subjetividade, análogo a cortar uma mão, em nome de uma “inclusão social” que em tese já foi concluída pela geração dos meus pais?

Aliás, um preço que eu posso até pagar, mas não vai apagar o racismo da minha vida. Não vai me fazer deixar de andar sobre o gume afiado da raiva, frustração, impotência, tristeza e da depressão frente a forma como o mundo me trata – alerto, uma das maiores causas de mortalidade de jovens negros é o suicídio.

É preciso combater a ilusão que já virou senso-comum, mas que foi formulada na academia por Florestan Fernandes – a quem respeito muito – de que o avanço da organização da sociedade de classes faria o racismo tornar-se disfuncional e desaparecer (não vou nem falar do mito da democracia racial chocado por Gilberto Freyre). Pois bem: engordar a classe trabalhadora (negra) e a burguesia (branca) no Brasil não fez isso, querido Florestan. Por motivos que você mesmo traduziu: o racismo é funcional para manter privilégios sociais dos indivíduos de uma classe que não tem como se reproduzir apenas pela dinâmica econômica. Para que os poderosos (brancos) continuem sendo poderosos, e os demais continuem, mesmo que melhor de vida, subjugados.

Stokely Carmichael e Charles Hamilton jogaram luz no fato de que a mácula do racismo faz simbiose perfeita com as instituições. O racismo institucional, assim, é o projeto de transformar aquela funcionalidade que o racismo tem em um mecanismo impessoal, invisível e inescapável de segregação que se torna parte da missão das instituições sociais em que vivemos. E Kimberle Crenshaw me ensinou como há interfaces importantíssimas entre raça, classe, gênero e mais outros tantos aspectos que nos compõe como seres humanos, e igualmente esses fatores toldam as instituições que regulam nossa vida.

Desculpe, pessoal. Eu não quero ser incluído nessas instituições.

A idéia de inclusão social herdou das noções de “assimilação” e de “integração”, outras palavras-chave da política racial brasileira, a pressuposição de que é a pessoa negra que tem de se movimentar na sociedade para produzir efeitos positivos para si. Isso tem um duplo efeito deletério: primeiro, a idéia de que se trata de processos atomizados, individuais, familiares ou, no máximo, de classe social, arrefecendo uma solidariedade que é muito material entre os que já sofreram racismo. Segundo, a idéia de que as instituições da sociedade não precisam ser reformadas para atender às demandas dessa população historicamente excluída e esmagadoramente negra, e sim essa população que tem de ser “reformada”.

E essas duas idéias estão erradas.

A inclusão social é a ascensão de um povo. Subjetiva e objetivamente, somos um povo. E precisamos construir os mecanismos necessários para que essa idéia, já presente no nosso cotidiano, tome forma de projeto político, de transformação da sociedade sob a ótica de uma população (aliás, de um conjunto de populações, pois nem só de raça vive o povo, viva a querida Crenshaw) que precisa ter voz própria, representação política própria, formas próprias de sociabilidade e socialização, linguagens próprias, e principalmente, amor-próprio. Isso em nada prejudica quem não faz parte de nós, aliás, avalio que esse projeto pode abarcar, no médio prazo, o conjunto da sociedade, pois falar só de/pra nós não vai resolver nosso problema.

E a inclusão social não resolve o problema das instituições. E esse problema é central. A universidade é uma máquina de formar brancos, e a presença maciça de negros nela vai dar curto-circuito – ou na universidade, ou nas pessoas negras. Os shoppings, templos de consumo onde minha presença atrai olhares de desprezo e ódio, são uma ode ao capital que tem cor, nos vendendo aceitação por um preço alto e uma qualidade duvidosa. Os shows de bandas bacaninhas e artistas avant-garde ainda me fazem ser revistado com duplo cuidado pelos seguranças. Os aviões – como eles odeiam pobre e/ou preto em avião! – são um ninho de hostilidade que podem fazer um senhor humilde que mora em São Paulo e foi visitar sua família no Nordeste de avião não queira nunca mais entrar nele, mesmo que tenha dinheiro pra isso.

A política, a política, meus queridos irmãos e irmãs, bota lágrimas nos olhos e raiva no coração de uns poucos parlamentares, homens e mulheres negros que tem vergonha na cara e se dignam a tentar representar seu povo de fato, e são diariamente acossados, chamados de ignorantes, de “tia do Café”, de analfabetos. E os que não tem vergonha na cara, querendo pagar o preço podre de uma ilusória inclusão institucional, são “negros, porém inteligentes”. Eu já ouvi da boca de mais de um deles que não é raro ouvir “Você não deveria estar aqui, aqui não é seu lugar”.

Eu acho que temos mesmo de ocupar todas essas instituições. Não acho que negá-las resolve. Eu acho que temos de entrar nas universidades, nos shopping, nos shows, nos aviões, nos parlamentos, nos governos, nas carreiras de Estado, nas profissões liberais, os empreendimentos, e temos de entrar com força. No mínimo, pelo curto-circuito que isso causa nas cabeças das pessoas e no comando das instituições, que precisam vir a público justificar por que duas pessoas de iguais direitos estão sendo tratadas com tanta diferença. Embaralhar as regras do jogo que eles criaram, e isso só se faz jogando.

Mas não podemos NUNCA comprar a ilusão de que nossa entrada vai promover uma “revolução interna” nesses lugares. Não vai, em nenhum. Lá dentro as regras são as regras deles, e pelas regras deles nós perdemos sempre ou viramos “token”.

É preciso ir além do paradigma da inclusão social. Ela precisa estar associada a um programa de profundas transformações institucionais. Qualquer projeto político popular que se preze, que queira fazer mudanças reais no Brasil em direção a uma sociedade para todos os seus membros, precisa levar em conta a necessidade de mudar as instituições que governam nossa vida social e política.

E parte dessas instituições, aliás, não merece sequer ser transformada: merece ser derrubada, posta a fogo e ter suas terras semeadas com sal, como fizeram os brancos romanos com a africana Cartago, para que nunca mais de suas terras nasça a hera venenosa do racismo. E em outro lugar da sociedade, ergueremos novas instituições, moldadas para oferecer a possibilidade de um destino livre e atender as necessidades e anseios todo o nosso povo. Como se estivéssemos erguendo novamente as malocas dos quilombos que já guardaram nossas vidas.

E, assim, faremos Palmares de novo.

*Yuri Brito, 24 anos, é negro, do interior da Bahia e coordenador nacional do Coletivo Quilombo.

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“A gente aceita o amor que acha que merece”

Frase clichê, eu sei. Mas ultimamente tenho pensado muito sobre as relações afetivo-sexuais, sobre nós mulheres pretas e o quanto essa frase se reflete e materializa em nossas vidas.

Assimilamos desde cedo o padrão normativo de beleza, ao mesmo passo que internalizamos o quanto estamos distante do belo. Aprendemos que “para ser bonita mulher tem que sofrer” e nós nos submetemos a uma série de procedimentos invasivos e dolorosos que vai de alisamentos a intervenções cirúrgicas.

A busca pelo ideal de “mulher perfeita” para nós é tão violento que enquanto nos faz desgostar de nossa aparência alimentando um desejo de modificar nossos corpos, joga em nossa cara – em toda e qualquer tentativa – que por mais perto que a gente chegue, nós nunca seremos elas, não chegaremos “lá”.

O racismo é perfeito para o que ele se propõe, sobretudo para nós -pretas – que além de sofrermos com as amarras do racismo, somos vítimas do machismo nosso de cada dia. E o mito do “somos todas iguais” ou “no Brasil todo mundo é mestiço” – criado e proferido por aqueles/as que detêm uma série de privilégios nessa sociedade – nos é empurrado goela abaixo para silenciar nossas dores e naturalizar essas violências.

O mito da mestiçagem colabora com a manutenção do privilégios das/os brancas/os e faz perpetuar, em nossas mentes pretas, que o problema está sempre com a gente, o problema é a gente. E, não o racismo.

A naturalização dessas violências intensifica aquele “não-gostar” de nós sobre os nossos corpos, nos faz acreditar que nunca somos o suficiente e que é compreensível de que os/as outros/as não gostem de nós. Afinal, o que temos para dar é tão pouco se comparado àquelas outras, não é?

A conformação da sociedade brasileira sobre as raízes podres do racismo e patriarcado objetifica e hipersexualiza nossos corpos pretos, gritando para nós que aquela velha frase “branca pra casar, preta pra transar” ainda é lugar que ocupamos no imaginário de todo um povo.

Mas, o que isso tem relação com “aceitarmos o amor que achamos que merecemos“?

Toda essa trama racista maquiada de “democracia racial” que circunda e permeia nossas vidas se refletem TAMBÉM nas relações afetivas que construímos. E as mulheres pretas aceitam o amor que acham que lhes cabem. E digam-me, dentro dessa sociedade perversa de mente racista e machista, o que nos cabe?

O resto. O que der, o que vier. “Agradeça que alguém te quer“, ouvimos.

As pretas são as preteridas e isso não é novidade. Somos as últimas em sua lista, as que vocês ligam depois das 22h, somos as mulheres que vocês não dão as mãos em público, as que vocês não apresentam a família, somos o caso, a outra, mais uma, ou simplesmente não somos nada.

Mas aceitamos. Aceitamos esconder a relação, aceitamos as ligações de madrugada, aceitamos os insultos, aceitamos o amor meia-boca de uma relação fracassada, aceitamos ser mais uma na sua lista de conquista, aceitamos ser a outra enquanto a branca é a escolhida, aceitamos.

Aceitamos porque nos é ensinado desde cedo que somos pouco, que somos menos, que o bom é para os outros e pra gente… Pra gente é nada. E quando alguém legal aparece e nos ama como nós somos… Desacreditamos, duvidamos, “não mereço você“, falamos.

Ouvi de uma amiga que “as pessoas não sentem necessidade de ser gentis com mulheres negras“, e não sentem. Nós sabemos. Nós aprendemos a lidar com os maus-tratos, nós aprendemos a engolir os “nãos“. Nós agüentamos com sorriso na cara o amargo gosto da solidão. Nós resistimos.

E quem irá nos amar então? Que amor a gente merece?

O nosso. Nosso amor. Amemos umas as outras. Digamos nós para outras de nós o quanto somos lindas, o quão amáveis somos. Empoderaremos outras pretas com afetividade. Nós merecemos relações onde o afeto e o respeito estejam presentes e mostraremos isso respeitando e amando nossas irmãs, amigas, mães, colegas.

Devemos ser o amor que a outra preta merece. Feminismo é amor.

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*Lorena Pacheco é estudante do curso de Direito e atual Coordenadora Geral do Diretório Central dos Estudantes da UFBA.

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Segundo o Mapa da Violência 2013, a cada três pessoas assassinadas no Brasil, duas tratam-se de jovens negros entre 15 e 24 anos. Só no ano de 2013, a quantidade de jovens negros mortos no país somou mais de 38 mil. A construção do estado brasileiro se dá de forma racista, com a juventude negra encarcerada e morta por uma polícia mal preparada e genocida, que se utiliza da guerra às drogas para, na verdade, criminalizar a pobreza. Para além disso, a juventude negra é, ainda, marginalizada pela pobreza que lhes nega o pleno acesso a direitos e oportunidades.

Contra isso protestavam militantes do Levante Popular da Juventude hoje pela manhã na Governadoria do Estado, no Centro Administrativo da Bahia, detidos de maneira arbitrária pelo braço armado do estado. Relatos contam que os jovens foram truculentamente abordados pelos policiais, sendo constrangidos, fisicamente agredidos e ameaçados por policiais armados como que para a guerra. Tal operação trata-se de uma criminosa agressão ao direito constitucional à livre manifestação, excessiva e completamente desproporcional.

Os movimentos sociais são marcos da nossa democracia e sua criminalização ataca diretamente essa mesma democracia. Não aceitaremos dar um passo atrás nos direitos obtidos com muita luta e garantidos pela Constituição Federal. Os movimentos sociais são demonizados pela direita brasileira, que se utiliza da mídia para acusa-los de violentos e baderneiros, numa tentativa de colocar contra eles a sociedade.

A juventude organizada para o combate contra as injustas opressões do sistema capitalista não pode ser encarcerada por fazê-lo. Não admitimos recuo nos direitos à livre manifestação na nossa sociedade democrática de direito. Não aceitamos a criminalização dos movimentos sociais e, para tal, exigimos a soltura dos jovens militantes duramente atacados no CAB. Toda solidariedade aos jovens envolvidos e ao Levante Popular da Juventude.

Coletivo Quilombo

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Redução não é a solução!

Por Lorena Pacheco*

A mina é abusada quando menor, retirada de sua infância e sem forças pra sair de uma relação abusiva, ela se vê gravida. Ela conta apaixonada pensando na vida juntos… Finalmente teria família de verdade, já que o pai ela nunca vira. Mas o cara some, ela fica sozinha.

A barriga cresce junto com o desespero. Ela pensa em abortar, mas é crime e a mina fica com medo de sangrar sozinha até a morte. Conta pra mãe do fardo que carrega em seu ventre, e sente o peso no seu rosto preto. Um tapa. “Vagabunda, procurou filho pois agora que procure o caminho da rua”. Expulsa de casa e humilhada.

A mina sai de casa, procura emprego mas nunca teve boa educação e só acha vaga pra varrer o chão. Varre todos os dias, chega exausta na sua favela e caminha com sua grande barriga sob os olhares de julgamento dos vizinhos.

O líquido escorre por entre as pernas e a dor em seu ventre atinge níveis agonizantes. Pega um ônibus e vai pra o hospital. 8 horas depois de chegar, a preta coloca pra fora um pretinho. Suspira, afinal, que chances aquele preto teria?

A mina da seu suor anos a fio pra dar de comer a aquele menino magrelo e preto, que mesmo sem ter biscoito recheado conseguia ser feliz.

Mas o pretinho cresce e precisa ir a escola, mas não tem tênis. E agora? A mina faz uma dívida e parcela de 3x os materiais, afinal ele não poderia ser “só mais um pretinho”.

E o pretinho vai crescendo e percebendo que na sua escola não tem aulas legais, que lá xs professorxs só querem pegar a grana e ir embora cedo da favela.

Um dia esse pretinho ficou doente e queimando em febre precisou ir no posto médico. Mais de 4h depois a mina desesperada com seu pretinho no colo, já cansada de esperar, voltou pra casa e com um beijo na testa disse “tome esse chá, logo vai passar”.

Mas pra o pretinho melhorar, de verdade, precisava ter o que comer. E a mina não tinha pra dar, chorou baixinho, engoliu o orgulho e pediu a vizinha o resto da janta. E o pretinho sabia disso. E então ele resolveu: “nunca mais vou ver mainha chorar”.

Aquele menino magrelo se tornou num adolescente indignado com sua situação. Procurou trabalho, mas com sua pouca idade só achou vaga pra trabalhar na lan house.

Mas seus duzentos reais não ajudavam em casa. Volta e meia faltava agua, luz e comida. E agora pretinho, o que fazer? Sua mãe triste cozinha os dois ovos da geladeira pra jantar. É o que tem pra hoje.

E o pretinho sai de casa decidido a mudar isso. Chega no parça, pega a arma e topa fazer “uns corre” pra botar comida em casa. Assaltou uma loja. Era uma loja chique no centro da cidade…

A polícia viu os pretinhos nas filmagens. Foi atrás deles e quando chegou na favela a galera logo se escondeu. A polícia só chega pra matar e isso lá não é novidade.

O pretinho voltando do colégio estranhou o movimento fraco naquelas ruas tão barulhentas. E na esquina de casa uma surpresa: “mão na cabeça, vagabundo”.

Levaram o pretinho e a mina assistiu tudo chorando. “Mas o meu menino é menino bom… Eu dei tudo que pude pra ele”!

E o pretinho passa mais de ano na cadeia-pra-menor: é estuprado, violentado, orientado pelos outros pretinhos a como roubar sem ser pego. O pretinho sai de lá com raiva de tudo e sem ter perspectiva de melhora.

E o pretinho volta pra favela com nome, agora ele era respeitado e não podia voltar atrás. Fez outros corres, liderava os pivetes. Mas comida não faltava pra sua mãe, nem pra sua mina.

Mas a polícia ficou na cola do pretinho. E na primeira oportunidade, no vacilo do pretinho, em um corre desses qualquer, foi pego em flagrante. A troca de tiros foi inevitável.

O pretinho até tentou, mas seu corpo caiu sem vida na saída daquele estabelecimento. E a mina desesperada em seu enterro se perguntava: “onde foi que eu errei?”.

E eu queria estar lá pra responder que não era ela quem estava errada. Nunca foi. O estado lhe faltou quando te negou o direito ao aborto, quando não lhe deu saúde e educação. O estado fechou os olhos para os problemas da sua vida e da vida do seu pretinho. O estado faltou e não garantiu a dignidade que você e seu pretinho necessitavam pra viver. E é esse mesmo estado que tira a vida do seu pretinho, mina. É esse mesmo estado que quer votar a redução da maioridade penal pra não ter que garantir tudo que não fizeram por você e seu pretinho.

Não chore, mina. Lutaremos juntos contra o genocídio e contra a redução para que essa crônica do pretinho não seja a realidade de tantos outros pretinhos por ai.

‪#‎ReduçãoNãoÉaSolução‬

* Lorena Pacheco é militante do Coletivo Quilombo, graduanda no curso de Direito e Coordenadora Geral do Diretório Central dos e das Estudantes da UFBA – Gestão Mandacaru.

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