Questões raciais: Do discurso do susto à personificação do racismo

por Paulo Gonzaga*

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Conversando com uma amiga e companheira de militância – Luize Campos – comecei a refletir sobre o que ela chamou de “discurso do susto”, que seria aquele discurso que vem sempre com um espanto ao ouvir alguma situação de discriminação e racismo. Como por exemplo, quem nunca ouviu as seguintes expressões: “o quê? como isso ainda existe no Brasil?”, “eu não sei como ainda existe racismo no Brasil?”, “como assim ele não foi aceito no estágio por conta do cabelo?”, “isto é um absurdo nos dias de hoje”…

Esse discurso do susto acaba carregando dois elementos importantes, o primeiro é a negação do racismo enquanto elemento estruturante das relações políticas-econômicas-sociais, o outro é a desresponsabilização de se ver dentro dos processos raciais no Brasil.
O primeiro elemento decorre de uma leitura (equivocada) de que o racismo opera apenas no âmbito individual/subjetivo e portanto deve ser tratado como algo pessoal. Se aquela pessoa é racista, a questão é apenas dela, porque a mesma não compreendeu o óbvio (não tão óbvio) que as pessoas possuem os mesmos direitos sociais independente da raça/cor.

Mas será que o racismo é uma questão individual?

É aí que vem o equívoco. O discurso do susto acaba negando que o racismo se expressa socialmente e organiza as relações de poder na sociedade. As pessoas não são racistas porque um belo dia elas resolveram achar que negros e negras são inferiores, que sua estética é feia, que não possuem almas, que sua carne é a mais barata do mercado e que somos atrasados intelectualmente. Pelo contrário, todos esses discursos foram/são construídos ao longo das nossa história e servem para manter a dominação e a exploração branca. Basta olhar qualquer marcador social (ou olhar para o lado) seja na área da saúde, acesso à educação, renda, direito à vida… poderemos perceber que nós negros e negras estaremos em desvantagem às pessoas brancas. Por isso, o racismo é institucional e peça chave para que a sociedade continue mantendo os privilégios brancos.

A partir do momento em que o racismo é trazido enquanto fenômeno individual, não há responsabilidade social sobre o processo de combatê-lo, pois a culpa são de algumas pessoas, e eu que não me percebo enquanto racista (tenho até amigos que são negros) não me vejo responsável em me perceber nas relações étnico-raciais e portanto, compreendo que o fim do racismo virá a partir do momento em que todas as pessoas se conscientizarem de que o racismo não é legal.

Não!!! As pessoas e instituições que detém os privilégios não irão abrir mão deles a partir de conscientização, isso virá através de muita luta, de muita ocupação preta nos espaços de poder, de reforma política que democratize a participação popular e de mobilizações nas ruas!

Todo poder ao povo preto!
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*Paulo Gonzaga é Psicólogo, Membro da Comissão Temática de Combate ao Racismo do Sindicato dos Psicólogos da Bahia e Militante do Coletivo Quilombo.

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