“Me vê a conta, por favor!”

lorena

Por Lorena Pacheco*

E, quando você se senta, o Chefe vem a sua mesa apresentar o cardápio e explicar como ele foi pensado e qual o seu modo de preparo. Então, você se lembra que num livro de receitas de um desses culinaristas-formados, esse tal prato-foda-e-caro que você escolheu é feito de maneira diferente.

O que você faz?
Confia na experiência do Chefe e espera sua comida ou vai lá dizer que o que ele tá fazendo está errado o culinarista-formado disse outra coisa?

Parece ridículo, né?
Mas por que as pessoas insistem em questionar a legitimidade do discurso das mulheres negras sobre a vida delas, sobre o seu dia-a-dia se baseando em livros de não-sei-quem lá da Europa? Na moral, me poupem!

Eu não preciso nem conjecturar muito pra saber que a imagem formada para o Chefe foi a de um homem branco. E a imagem para o culinarista [PASMEM] também foi. Será que o fator raça e gênero tem algo a ver com o não-enfrentamento? Será que o poder que um macho-branco passa só por suas características é o suficiente para ser aplaudido e legitimado por tudo o que faz?

O restaurante é a sociedade.
Os esquerdomachos são os clientes.
As pretas são as Chefes.

Escutar o que as mulheres pretas têm a dizer é um navegar imenso em conhecimento [as vezes acadêmico, as vezes não], é buscar a empatia a partir de outras perspectivas, é sobretudo demonstrar respeito por aquelas que vivem o amargo de (sobre)viver numa sociedade patriarcal, racista e LGBTfóbica.

Sentem-se a mesa.
Provem os frutos podres de nossa realidade cruel.
Degustem. Engulam.

Os livros na estante são como as facas que estamos aprendendo a usar a nosso favor. Angela Davis, Lélia Gonzaléz, Bell Hooks, Audre Lorde, Chimamanda, Djamila Ribeiro, Sueli Carneiro. E seremos nós as referências acadêmicas de nós mesmas, e seremos nós a falarmos sobre nossa realidade. Porque nós sabemos o quanto foi duro chegar até aqui e o quanto é pesado nos mantermos de pé.

Gostando ou não, vocês vão pagar a conta!

___________________________________
*Lorena Pacheco é graduanda do curso de Direito na Universidade Federal da Bahia, tem 21 anos, militante no Núcleo Feminista Lélia Gonzalez, Coletivo Quilombo e Esquerda Popular Socialista (EPS), tendência interna do Partido dos Trabalhadores (PT).

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