As 30 faces da misoginia

“Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”.

Quantas vezes nos foi negado o direito de dizer “não”? Quantas vezes iremos ter que dizer “não”? Com quantos “nãos” se fazem um estupro? Com quantos homens se fazem um estupro?

Certamente, depois do caso de estupro que aconteceu no bairro de Praça Seca no Rio De Janeiro, onde 30 homens estupraram uma adolescente, viver é uma tarefa difícil para as mulheres brasileiras. Falar sobre estupro é falar de uma cultura que perpetua e instiga comportamentos de ódio à mulher, de negação da existência da mulher enquanto uma pessoa dotada de subjetividades e vontades e, acima de tudo, é silenciamento e invisibilidade.

Falar de estupro é falar de homens, sim. É falar de experiências que afetam as mulheres todos os dias através de padrões de comportamento (re)produzidos por homens. O que precisamos falar é desde o xingamento na rua até uma violência física brutal, como o estupro. Todas as especificidades da violência contra mulher atuam de uma maneira tão bem elaborada e intricada que um estupro brutal é posto em dúvida e em questionamento por homens nas redes sociais, um comentário de legitimação da violência contra mulher não está muito longe do passo para cometer a violência contra mulher. Ideias não andam sozinhas, existem fatos que as impulsionam e ações que delas resultam.

Falar de estupro é falar de negação do outro e do processo de desumanização dos corpos femininos, que na cultura do estupro, são reduzidos a objetos. Nós, feministas, estamos falando de uma sociedade onde as mulheres são destinadas e ensinadas a dar prazer aos homens, onde são levadas a iniciar sua sexualidade desde cedo, onde a nossa sexualidade é (até nos discursos de liberdade sexual) pautada à partir do que se diz respeito ao homem, onde a finalidade da existência feminina é aquilo que ela pode contribuir para a felicidade masculina. Contudo, essa felicidade masculina é a negação da nossa existência, da nossa felicidade, das nossas vontades, dos nossos sonhos, dos nossos desejos e dos nossos sentimentos. Vivemos em uma sociedade onde nos negaram o direito de negar, o direito de existir enquanto sujeitas humanas e não objetos.

Tudo isso parece muito aos olhos de alguns e, parece exagero, aos olhos de muitos. Mas perguntamos, especialmente aos homens, como trinta homens estupraram uma adolescente? Seriam trinta homens, todos doentes? Uma mulher é estuprada a cada três horas no Brasil, isso significa oito estupros por dia, duzentos e quarenta estupros por mês e, em média, dois mil oitocentos e oitenta estupros por ano! Seriam todos esses homens doentes? E quando vamos falar dos casos não notificados, o número aumenta. E quando vamos falar das minúcias de como a cultura do estupro afeta a vida das mulheres, os casos se multiplicam. Você pararia de transar se uma mulher dissesse no meio do sexo, “não”? Você ficaria com raiva? Você entenderia? É disso que estamos falando, nós estamos falando de como a cultura do estupro está presente em cada detalhe do comportamento masculino. Estamos falando do seu pornô “gang bang”, por exemplo. Você vai deixar de assisti-lo? O quanto você está disposto a abrir mão para acabar com a cultura de estupro? Você está disposto a abrir mão dos seus espaços de poder?

O que fazer, é o que nós feministas estamos todos os dias buscando, mas nós sabemos que deixar de estar na luta nunca nos foi uma opção, porque nós somos estupradas e violentadas todos os dias. Viver com isso é uma luta. Nós desejamos muita força as mulheres vítimas de violência de gênero e da cultura do estupro, continuaremos lutando pela transformação radical das estruturas da sociedade. Continuaremos para que um dia o nosso “não” seja respeitado, para que um dia ele não precise ser evocado apenas em palavras, mas que já esteja subentendido devido à compreensão da existência do outro.

Núcleo Feminista Lélia Gonzalez
Coletivo Quilombo

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