“A gente aceita o amor que acha que merece”

Frase clichê, eu sei. Mas ultimamente tenho pensado muito sobre as relações afetivo-sexuais, sobre nós mulheres pretas e o quanto essa frase se reflete e materializa em nossas vidas.

Assimilamos desde cedo o padrão normativo de beleza, ao mesmo passo que internalizamos o quanto estamos distante do belo. Aprendemos que “para ser bonita mulher tem que sofrer” e nós nos submetemos a uma série de procedimentos invasivos e dolorosos que vai de alisamentos a intervenções cirúrgicas.

A busca pelo ideal de “mulher perfeita” para nós é tão violento que enquanto nos faz desgostar de nossa aparência alimentando um desejo de modificar nossos corpos, joga em nossa cara – em toda e qualquer tentativa – que por mais perto que a gente chegue, nós nunca seremos elas, não chegaremos “lá”.

O racismo é perfeito para o que ele se propõe, sobretudo para nós -pretas – que além de sofrermos com as amarras do racismo, somos vítimas do machismo nosso de cada dia. E o mito do “somos todas iguais” ou “no Brasil todo mundo é mestiço” – criado e proferido por aqueles/as que detêm uma série de privilégios nessa sociedade – nos é empurrado goela abaixo para silenciar nossas dores e naturalizar essas violências.

O mito da mestiçagem colabora com a manutenção do privilégios das/os brancas/os e faz perpetuar, em nossas mentes pretas, que o problema está sempre com a gente, o problema é a gente. E, não o racismo.

A naturalização dessas violências intensifica aquele “não-gostar” de nós sobre os nossos corpos, nos faz acreditar que nunca somos o suficiente e que é compreensível de que os/as outros/as não gostem de nós. Afinal, o que temos para dar é tão pouco se comparado àquelas outras, não é?

A conformação da sociedade brasileira sobre as raízes podres do racismo e patriarcado objetifica e hipersexualiza nossos corpos pretos, gritando para nós que aquela velha frase “branca pra casar, preta pra transar” ainda é lugar que ocupamos no imaginário de todo um povo.

Mas, o que isso tem relação com “aceitarmos o amor que achamos que merecemos“?

Toda essa trama racista maquiada de “democracia racial” que circunda e permeia nossas vidas se refletem TAMBÉM nas relações afetivas que construímos. E as mulheres pretas aceitam o amor que acham que lhes cabem. E digam-me, dentro dessa sociedade perversa de mente racista e machista, o que nos cabe?

O resto. O que der, o que vier. “Agradeça que alguém te quer“, ouvimos.

As pretas são as preteridas e isso não é novidade. Somos as últimas em sua lista, as que vocês ligam depois das 22h, somos as mulheres que vocês não dão as mãos em público, as que vocês não apresentam a família, somos o caso, a outra, mais uma, ou simplesmente não somos nada.

Mas aceitamos. Aceitamos esconder a relação, aceitamos as ligações de madrugada, aceitamos os insultos, aceitamos o amor meia-boca de uma relação fracassada, aceitamos ser mais uma na sua lista de conquista, aceitamos ser a outra enquanto a branca é a escolhida, aceitamos.

Aceitamos porque nos é ensinado desde cedo que somos pouco, que somos menos, que o bom é para os outros e pra gente… Pra gente é nada. E quando alguém legal aparece e nos ama como nós somos… Desacreditamos, duvidamos, “não mereço você“, falamos.

Ouvi de uma amiga que “as pessoas não sentem necessidade de ser gentis com mulheres negras“, e não sentem. Nós sabemos. Nós aprendemos a lidar com os maus-tratos, nós aprendemos a engolir os “nãos“. Nós agüentamos com sorriso na cara o amargo gosto da solidão. Nós resistimos.

E quem irá nos amar então? Que amor a gente merece?

O nosso. Nosso amor. Amemos umas as outras. Digamos nós para outras de nós o quanto somos lindas, o quão amáveis somos. Empoderaremos outras pretas com afetividade. Nós merecemos relações onde o afeto e o respeito estejam presentes e mostraremos isso respeitando e amando nossas irmãs, amigas, mães, colegas.

Devemos ser o amor que a outra preta merece. Feminismo é amor.

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*Lorena Pacheco é estudante do curso de Direito e atual Coordenadora Geral do Diretório Central dos Estudantes da UFBA.

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