Redução não é a solução!

Por Lorena Pacheco*

A mina é abusada quando menor, retirada de sua infância e sem forças pra sair de uma relação abusiva, ela se vê gravida. Ela conta apaixonada pensando na vida juntos… Finalmente teria família de verdade, já que o pai ela nunca vira. Mas o cara some, ela fica sozinha.

A barriga cresce junto com o desespero. Ela pensa em abortar, mas é crime e a mina fica com medo de sangrar sozinha até a morte. Conta pra mãe do fardo que carrega em seu ventre, e sente o peso no seu rosto preto. Um tapa. “Vagabunda, procurou filho pois agora que procure o caminho da rua”. Expulsa de casa e humilhada.

A mina sai de casa, procura emprego mas nunca teve boa educação e só acha vaga pra varrer o chão. Varre todos os dias, chega exausta na sua favela e caminha com sua grande barriga sob os olhares de julgamento dos vizinhos.

O líquido escorre por entre as pernas e a dor em seu ventre atinge níveis agonizantes. Pega um ônibus e vai pra o hospital. 8 horas depois de chegar, a preta coloca pra fora um pretinho. Suspira, afinal, que chances aquele preto teria?

A mina da seu suor anos a fio pra dar de comer a aquele menino magrelo e preto, que mesmo sem ter biscoito recheado conseguia ser feliz.

Mas o pretinho cresce e precisa ir a escola, mas não tem tênis. E agora? A mina faz uma dívida e parcela de 3x os materiais, afinal ele não poderia ser “só mais um pretinho”.

E o pretinho vai crescendo e percebendo que na sua escola não tem aulas legais, que lá xs professorxs só querem pegar a grana e ir embora cedo da favela.

Um dia esse pretinho ficou doente e queimando em febre precisou ir no posto médico. Mais de 4h depois a mina desesperada com seu pretinho no colo, já cansada de esperar, voltou pra casa e com um beijo na testa disse “tome esse chá, logo vai passar”.

Mas pra o pretinho melhorar, de verdade, precisava ter o que comer. E a mina não tinha pra dar, chorou baixinho, engoliu o orgulho e pediu a vizinha o resto da janta. E o pretinho sabia disso. E então ele resolveu: “nunca mais vou ver mainha chorar”.

Aquele menino magrelo se tornou num adolescente indignado com sua situação. Procurou trabalho, mas com sua pouca idade só achou vaga pra trabalhar na lan house.

Mas seus duzentos reais não ajudavam em casa. Volta e meia faltava agua, luz e comida. E agora pretinho, o que fazer? Sua mãe triste cozinha os dois ovos da geladeira pra jantar. É o que tem pra hoje.

E o pretinho sai de casa decidido a mudar isso. Chega no parça, pega a arma e topa fazer “uns corre” pra botar comida em casa. Assaltou uma loja. Era uma loja chique no centro da cidade…

A polícia viu os pretinhos nas filmagens. Foi atrás deles e quando chegou na favela a galera logo se escondeu. A polícia só chega pra matar e isso lá não é novidade.

O pretinho voltando do colégio estranhou o movimento fraco naquelas ruas tão barulhentas. E na esquina de casa uma surpresa: “mão na cabeça, vagabundo”.

Levaram o pretinho e a mina assistiu tudo chorando. “Mas o meu menino é menino bom… Eu dei tudo que pude pra ele”!

E o pretinho passa mais de ano na cadeia-pra-menor: é estuprado, violentado, orientado pelos outros pretinhos a como roubar sem ser pego. O pretinho sai de lá com raiva de tudo e sem ter perspectiva de melhora.

E o pretinho volta pra favela com nome, agora ele era respeitado e não podia voltar atrás. Fez outros corres, liderava os pivetes. Mas comida não faltava pra sua mãe, nem pra sua mina.

Mas a polícia ficou na cola do pretinho. E na primeira oportunidade, no vacilo do pretinho, em um corre desses qualquer, foi pego em flagrante. A troca de tiros foi inevitável.

O pretinho até tentou, mas seu corpo caiu sem vida na saída daquele estabelecimento. E a mina desesperada em seu enterro se perguntava: “onde foi que eu errei?”.

E eu queria estar lá pra responder que não era ela quem estava errada. Nunca foi. O estado lhe faltou quando te negou o direito ao aborto, quando não lhe deu saúde e educação. O estado fechou os olhos para os problemas da sua vida e da vida do seu pretinho. O estado faltou e não garantiu a dignidade que você e seu pretinho necessitavam pra viver. E é esse mesmo estado que tira a vida do seu pretinho, mina. É esse mesmo estado que quer votar a redução da maioridade penal pra não ter que garantir tudo que não fizeram por você e seu pretinho.

Não chore, mina. Lutaremos juntos contra o genocídio e contra a redução para que essa crônica do pretinho não seja a realidade de tantos outros pretinhos por ai.

‪#‎ReduçãoNãoÉaSolução‬

* Lorena Pacheco é militante do Coletivo Quilombo, graduanda no curso de Direito e Coordenadora Geral do Diretório Central dos e das Estudantes da UFBA – Gestão Mandacaru.

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