O caminho é ir às ruas

*Yuri Brito

1

O ano de 2012 deixa importantes lições para o movimento estudantil da UFBA. Ele começou sob o signo da esperança em relação aos compromissos arrancados da reitoria, para março daquele ano, por uma forte mobilização realizada no semestre anterior. Mas logo se viu que esse prazo não seria cumprido. O que vimos foi um descaso com os estudantes da UFBA, passando por cima, inclusive, de um compromisso escrito e assinado.

O VII Congresso de Estudantes, em maio, cumpriu um papel importante por ter sido representativo, capaz de construir uma agenda política para o movimento na UFBA e de debater os rumos do movimento estudantil nacional. Mas também abriu a discussão sobre quais atitudes deveriam ser tomadas frente a uma administração que se omitia até de responder os questionamentos feitos pelo Diretório Central dos Estudantes e pela representação estudantil. Já se notava que somente a mobilização discente, que colocou a assistência estudantil na pauta, poderia manter o tema em destaque.

congresso plefinal

Durante o Congresso, uma assembleia docente deflagrou greve, num processo conturbado que revelou uma categoria, naquele momento, dividida. A plenária final do Congresso, em sintonia com as discussões travadas, declarou um estado de mobilização estudantil, recomendou aos cursos que puxassem assembleias de base para debater o tema e convocou assembleia geral, para a semana seguinte, com pauta única: greve.
O espírito das assembleias de base foi acertado: não se tratava de apenas apoiar a greve docente; nós tínhamos pauta própria, a reitoria já nos devia explicações e existia uma luta nacional em curso pelos 10% do PIB para a educação. Trinta cursos fizeram assembleias e mais de vinte deflagraram greve imediatamente, no intuito de manter estudantes mobilizados numa universidade sem aula. Mas todos, independente da posição acerca da greve, reconheciam a existência de uma pauta política pela qual valia a pena lutar.

538262_543867958979959_1782183252_n

No dia 6 de junho de 2012, a Faculdade de Arquitetura sediou uma assembleia impressionante. O auditório e seus entornos ficaram completamente lotados. Foi inquestionavelmente a maior assembleia que a UFBA viu em anos. E, após o relato das assembleias de base, os e as estudantes presentes votaram pela greve estudantil.
O início foi conturbado. Ainda que o Conselho de Entidades de Base, as assembleias de curso e os fóruns locais e temáticos reafirmassem a greve, uma discussão intensa foi feita acerca de sua legitimidade. Num cenário onde a categoria docente se via profundamente dividida, parecia que o mesmo se daria entre os estudantes.

Mas essa possibilidade se dissipou, na medida em que o movimento teve a maturidade de respeitar a autonomia das assembleias de base, que se declararam contra a greve e de não perder tempo com discussões infrutíferas e guerras de notas públicas. O acúmulo de forças através de aulas públicas e assembleias de base, bem como a adesão dos campi do interior à greve, foram fatores que também contribuíram para isso.
O movimento estudantil avançou quando percebeu que a sua pauta política não era a greve; que ela era um método, entre vários, para defender o interesse dos e das estudantes, fazendo avançar a agenda do movimento estudantil, e isso que é fundamental e deve ser o mote da unidade.389713_122683004538902_984827285_n

Foi aí que o movimento viveu seu período mais intenso, com atos de rua, frutos da colaboração entre comando geral e comandos locais de greve. O comando estudantil começou a se articular com o comando docente e técnico-administrativo e os primeiros avanços começaram a ocorrer. O Conselho Universitário e o Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão reconheceram a greve estudantil e garantiram a segurança acadêmica dos estudantes.

Porém, em termos de pautas, a reitoria continuava a ignorar a mobilização. Foi aí que se encontrou o ponto crítico da mobilização e novamente o caminho foi tomar as ruas. Quando ocupamos a Fundação de Apoio à Pequisa e Extensão, a negociação se efetivou e, após 13 dias, o movimento reconheceu os avanços obtidos, como a publicação do edital do BUZUFBA e a aceleração dos processos relativos aos restaurantes universitários, e desocupou a fundação.

A partir desse momento, as greves entraram em sua fase final, focando seus esforços na luta em torno da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares. O fim da greve estudantil veio num Conselho de Entidades de Base muito mobilizado, onde o saldo positivo foi apontado e já se definiu as tarefas do período seguinte: não apenas agitar as vitórias do movimento, como também se manter vigilante para as pautas que ainda não haviam se concretizado

71445_543871148979640_1870364809_n (1)
A mobilização de 2012, portanto, inseriu-se num ciclo longo que teve início em 2011. Sem dúvida, as conquistas de 2012 também tem a ver como toda a mobilização anterior, e certamente a greve cumpriu papel importante para elas. Mas esse ciclo também se prolonga para além da greve e, talvez, continue em 2013.
Não há dúvidas de que crítica e autocrítica são necessárias e todos nós precisamos ter maturidade para fazer e ouvir. O modo de conduzir assembleias, que gerou polêmica na primeira delas, por exemplo, foi corrigido e o movimento agora tem organização para lidar com mobilizações maiores. Além disso, a grande dificuldade de construir a mesma unidade vista na pauta local, quando se trata de uma pauta nacional, também é um ponto sensível que precisa evoluir.

Avançar nesse quesito exige maturidade do movimento estudantil. Ele precisa crescer, falar para além de si mesmo e ampliar a representatividade das entidades estudantis, a fim de construir bandeiras unificadas e vencer com elas em punho. E, para isso, devemos superar a lógica antiquada do movimento estudantil que valoriza a divergência em detrimento da unidade, prioriza a disputa vazia pelas direções de entidades e cargos de representação estudantil e o embate de estudante contra estudante em detrimento da defesa de suas pautas e faz guerra de notas públicas que ninguém lê.
É fundamental compreender o papel protagonista que nós, estudantes, estamos nos propondo a assumir nacionalmente com a luta pelos 10% do PIB para a educação, com a luta em defesa do caráter público dos hospitais universitários, a greve das federais, e tantas outras lutas que crescem.

Devemos, para cumprir esse papel, construir um modo de fazer movimento que dê conta da multiplicidade de pontos de vista sobre esses temas, para que os e as estudantes se sintam motivados a participar do movimento. Um modo que permita a exposição de diferentes pontos de vista, que as divergências existam e que resultem numa síntese que, se não satisfaz plenamente a todos, permite avançar na defesa da universidade que queremos.534494_393854287351410_1846868042_n

O balanço do ano é, sem dúvida, positivo. Ver o Buzufba em funcionamento é prova disso. Ter um movimento que tem projeto político – o saldo do VII Congresso – também. Mas ainda há muitos motivos para lutar: a questão emergente da qualidade do Restaurante Universitário, a efetivação de seus pontos de distribuição, a melhoria do Buzufba e a questão do transporte em geral, a disputa acerca da EBSERH, o aumento das verbas da universidade para assistência estudantil e a implementação de um conselho paritário de gestão da política de assistência estudantil. Esses são bons exemplos que já tem tido bastante atenção, mas também é importante destacar que o movimento precisa aprofundar as discussões sobre uma mudança de concepção de universidade, se debruçando sobre temas como a reestruturação acadêmica e a valorização da extensão.

Parte importante da pauta tem sido conquistada e já melhora significativamente a vida dos e das estudantes, mas ainda falta muito para que a universidade seja como sonhamos. E embora tenhamos aprendido a construir consensos, ainda precisamos amadurecer sobre como nos organizamos, para que a diversidade de opiniões seja mais bem aproveitada e para evitar que cada divergência seja um entrave ao avanço do movimento.

0000

Por vezes, olhar para trás é necessário para compreender os desafios que temos à frente. E isso significa fazer autocrítica e aprender com nossos erros, mas também para aprender com o grande acerto do último período: a possibilidade de fazer um movimento estudantil que tem um projeto político de universidade e sabe agir com unidade em torno dele. E que já aprendeu que para vencer só existe um caminho: ir às ruas.

Yuri Brito é estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia, militante do Coletivo Quilombo e foi diretor do DCE-UFBA na gestão “Ciranda de Lutas”.

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s