RECORTES E COLAGENS: apontamentos de método e estratégia para um partido da classe trabalhadora brasileira

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Foto: Milena Abreu, Labfoto.

O Partido dos Trabalhadores emerge como uma importante síntese na década de 80. Dos escombros da ditadura e da terra arrasada em que a esquerda se encontrava, surge a ideia de construir um partido da classe trabalhadora, com a ideia de organizar prioritariamente a luta social, sendo um polo acumulador das suas multiplicidade e pautando reformas estruturais em direção à superação do capitalismo.

Porém, observando a história do PT e do Brasil depois do final violento do ciclo de governos petistas, a partir de um golpe parlamentar, emerge uma questão: quais caminhos nos trouxeram de lá até aqui? Dos manifestos dos anos 80 até o saldo final dos governos petistas, o que se alterou, tanto na realidade do povo, quanto na própria esquerda? Há uma miríade de respostas tão possíveis quanto verdadeiras. Mas é importante apontar um problema que tem sido pouco discutido.

Mesmo sem as reformas estruturais, os governos petistas alçaram mudanças nas classes sociais com uma nova camada ascendente de trabalhadores, mas houve um esvaziamento na disputa subjetiva desta classe. A mera reprodução de políticas que melhoram a vida das pessoas viu-se marginalizada frente à ferocidade do capitalismo em crise.

Isso se dá porque a desigualdade e a miséria são funcionais na reprodução da sociedade brasileira. Sem reflexão sobre o seu sentido, a “inclusão” teve uma consequência: deu uma pane geral no sistema.

A massa ascendente se viu travada por mecanismos estranhos à suposta meritocracia, que disfarça o privilégio dos ricos, como o racismo e machismo institucional. Mesmo com graduação superior, se viam subalternos aos filhos da elite, com menor salário e status. Não se enxergavam como parte da classe média tradicional como era prometido pela ideia de “Nova Classe Média”. Quem oferecia sentidos e interpretações para a vida e a ascensão contínua eram, muitas vezes, líderes religiosos conservadores ou membros da elite tradicional que negociam poder e prestígio por de lealdade de classe.

Já os setores médios viram privilégios ameaçados, quando aqueles se recusam a cumprir o papel que lhes era reservado. O trabalho doméstico é a expressão mais bem acabada disso: não apenas aqueles encontravam cada vez mais dificuldade de bancá-lo, como ainda viam seus filhos disputarem a universidade e o mercado de trabalho com filhos das suas ex-domésticas.

A elite tolerou a disfunção enquanto garantia seus lucros. Mas, com a crise econômica mundial, puxou o pino da granada: detonou uma poderosa narrativa, centrada numa moralidade oca e na demonização da esquerda, galvanizando o medo da perda de privilégios dos setores médios e trouxe para as ruas um movimento de massa que correspondia à aliança entre mídia, partidos conservadores, elites econômicas ultraliberais, castas corporativas e fundamentalistas religiosos.

A esquerda foi incapaz de produzir uma interpretação que desse sentido e consequência às mudanças trazidas pelo seu governo, para estimular forças sociais progressistas renovadas. E, ao mesmo tempo, a falta de força era a justificativa sempre apresentada para não empreender reformas estruturais.

Um apontamento pode ser feito no sentido de dissolver esta contradição. Ele exige uma renovação das forças sociais organizadas da classe trabalhadora. Reafirmando a necessidade das reformas estruturais, mas apresentando um método de construção da força necessária para realizá-las.

O centro é entender que não há uma classe trabalhadora abstrata, sem corpos e identidades. Parece óbvio, mas muitas formulações da esquerda esquecem que a maioria da classe trabalhadora é formada por negros e negras; a maioria da população negra é de mulheres; a maioria das mulheres são trabalhadoras pobres. E assim poderíamos prosseguir, percebendo uma amálgama estrutural entre raça, classe e gênero.

Não são pautas meramente identitárias. São também estruturais, atuam em conjunto e sobre as quais precisa-se agir coordenadamente. Não é valorizando “setoriais”, recortes de raça e gênero, que vamos lidar com esse fato. O método proposto é, portanto, o contrário deste. Ele implica em ter, em todas as formulações programáticas e estratégicas, uma lente que exponha que a classe se expressa em corpos – majoritariamente, negros e/ou femininos.

Reconhecer que a limitada, mas importante, ascensão social teve como ponta de lança mulheres negras que chefiavam suas famílias, seguidas outras mulheres e por homens negros, e que alcançavam não apenas a ascensão econômica, mas a autonomia social. E é daí que brotam forças importantes, ainda que longe do centro do poder, reafirmando essas identidades e lutando por pautas que a esquerda tradicional muitas vezes sequer enxerga.

É preciso construir mais que uma narrativa, uma estratégia, um programa ou símbolos que levem em conta este fato inegável. E para isso, exige-se um processo de colagem, um método que consiga sintetizar estas demandas estruturais na renovação dessas formulações. Que traga ao centro, pautas que mobilizam, mas que sempre são diminuídas em torno de pautas “neutras”, mas que servem apenas à reprodução de um poder adulto, branco e masculino – como é o poder burguês – dentro das próprias organizações da classe trabalhadora.

A colagem, ao contrário do recorte, entende que toda auto-organização de negros e negras e mulheres precisa resultar em processos de hegemonia. E para isso, precisa construir pontes com outros elementos identitários – sexualidade, geração, regionalidade – e formular política para além do seu “setor”. Não haverá transformação alguma se a classe trabalhadora não tiver instrumentos que possam se reproduzir espelhando a vida real dela, e não a da burguesia.

Este método não implica em desconsiderar as contrapartes não-negras e não-femininas da classe trabalhadora. Apenas que na construção dos nossos instrumentos, devem sempre ser considerados apontando para uma hegemonia ordenada de maneira oposta à da sociedade – que põe mulheres negras pobres embaixo na pirâmide e homens brancos e ricos no topo. Significa abrir espaço para sujeitos que são o motor da classe, e não apenas para as suas capas superiores, mais bem remuneradas e reconhecidas socialmente.

Especificamente, sobre o PT, aplicar este método implica em reflexões de três ordens:

Simbólica: é preciso haver uma política de reconhecimento que implica na formação de quadros e na produção de uma estética que dialogue com a própria identidade da classe trabalhadora brasileira. Que incorpore, mas vá além da identidade de peão, evocada com tanto sucesso pelo ex-presidente Lula, e exprima também a composição e as mudanças na classe trabalhadora neste último período, permitindo a ela se enxergar no seu instrumento.

Programática: É preciso perceber uma série de demandas que tem sido secundarizadas, mas que são essenciais na vida do povo e na transformação estrutural da sociedade, e sem as quais não haverá diálogo com boa parte da classe trabalhadora e do povo pobre. Por exemplo, nenhuma melhora na vida econômica de uma família ou comunidade supera a perda de um pai ou filho, geralmente negros, para a violência do Estado, que as desorganiza emocional e financeiramente. Elementos como este precisam contar com maior prioridade e formulação programática.

Estratégica (com consequências organizativas): Não se pode viver da ilusão de um país de classe média e ricos. Estas são classes sociais com um estilo de vida que depende da existência da miséria. O caminho para a superação do capitalismo passa por construir um novo tipo de vida, pautada em outros valores que não o consumo, a acumulação de riquezas e o prazer sustentado no sofrimento alheio. As reformas estruturais precisam estar aliadas a construção de novos valores que propiciem condições subjetivas para realizá-las, à qual serve bem a efetiva incorporação destes sujeitos no processo de direção partidária, o estímulo à formação de redes militantes e a organização de uma frente ampla e diversa que abarque todas as organizações que contribuem para esta reflexão.

Ouvimos, por anos, que não havia correlação de forças para avançar mais. Que certas reformas e rupturas não eram viáveis, pois não havia força suficiente para bancá-las.

Pois bem, aqui está uma contribuição para um método de construção desta força. Ele exige direções políticas e símbolos mais negras, femininas e diversas. Exige um programa que discuta economia e antirracismo, política social e feminismo, educação e diversidade, como se fossem uma coisa só – porque na vida do povo, efetivamente são. Falar só da classe, só da pobreza, como se não elas não se expressassem em corpos reais, é continuar reproduzindo em nós as ideias de nossos inimigos, da mesma forma que falar de identidades sem lembrar das estruturas articuladas é fazer o mesmo por caminho diverso.

Acima de tudo, temos de dizer que lutamos por uma nova sociedade. Dizer a todas as pessoas que, para melhorar de vida, não será preciso calçar as botas do opressor. E assim contribuiremos para reavivar os nexos vivos entre partido e movimentos sociais, sobre o que muito se fala e nem tanto se faz.

Ao produto desse método, ofereça-se um nome que aponte para esta transformação. Se das mais brutas veias do nosso povo, para tomar o poder, então a chamaremos de Revolução de Pés no Chão. E sem ilusões, isso não se fará por outros se não por nós mesmos. Não adianta pedir licença a quem não quer ouvir.

Vem aí o Congresso do partido da classe trabalhadora brasileira, e nele é preciso construir força própria a partir do diálogo, atingindo a todas as correntes internas, grupos, movimentos, etc. Sobretudo, aos petistas que independentemente de suas posições anteriores, compreendem que é preciso oferecer um caminho, um método de construção da força que precisamos para imprimir a derrota última à burguesia brasileira, sempre ajoelhada ao imperialismo.

Não há alternativa possível. A nós, só cabe o desafio de vencer.

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* Yuri Brito, é graduando do curso de Ciências Sociais, na Universidade Federal da Bahia, 2º Diretor de Combate ao Racismo da União Nacional dos Estudantes (UNE), militante do Coletivo Quilombo e da Esquerda Popular Socialista (EPS), tendência interna do Partido dos Trabalhadores (PT).

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“Me vê a conta, por favor!”

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Por Lorena Pacheco*

E, quando você se senta, o Chefe vem a sua mesa apresentar o cardápio e explicar como ele foi pensado e qual o seu modo de preparo. Então, você se lembra que num livro de receitas de um desses culinaristas-formados, esse tal prato-foda-e-caro que você escolheu é feito de maneira diferente.

O que você faz?
Confia na experiência do Chefe e espera sua comida ou vai lá dizer que o que ele tá fazendo está errado o culinarista-formado disse outra coisa?

Parece ridículo, né?
Mas por que as pessoas insistem em questionar a legitimidade do discurso das mulheres negras sobre a vida delas, sobre o seu dia-a-dia se baseando em livros de não-sei-quem lá da Europa? Na moral, me poupem!

Eu não preciso nem conjecturar muito pra saber que a imagem formada para o Chefe foi a de um homem branco. E a imagem para o culinarista [PASMEM] também foi. Será que o fator raça e gênero tem algo a ver com o não-enfrentamento? Será que o poder que um macho-branco passa só por suas características é o suficiente para ser aplaudido e legitimado por tudo o que faz?

O restaurante é a sociedade.
Os esquerdomachos são os clientes.
As pretas são as Chefes.

Escutar o que as mulheres pretas têm a dizer é um navegar imenso em conhecimento [as vezes acadêmico, as vezes não], é buscar a empatia a partir de outras perspectivas, é sobretudo demonstrar respeito por aquelas que vivem o amargo de (sobre)viver numa sociedade patriarcal, racista e LGBTfóbica.

Sentem-se a mesa.
Provem os frutos podres de nossa realidade cruel.
Degustem. Engulam.

Os livros na estante são como as facas que estamos aprendendo a usar a nosso favor. Angela Davis, Lélia Gonzaléz, Bell Hooks, Audre Lorde, Chimamanda, Djamila Ribeiro, Sueli Carneiro. E seremos nós as referências acadêmicas de nós mesmas, e seremos nós a falarmos sobre nossa realidade. Porque nós sabemos o quanto foi duro chegar até aqui e o quanto é pesado nos mantermos de pé.

Gostando ou não, vocês vão pagar a conta!

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*Lorena Pacheco é graduanda do curso de Direito na Universidade Federal da Bahia, tem 21 anos, militante no Núcleo Feminista Lélia Gonzalez, Coletivo Quilombo e Esquerda Popular Socialista (EPS), tendência interna do Partido dos Trabalhadores (PT).

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As 30 faces da misoginia

“Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”. “Não”.

Quantas vezes nos foi negado o direito de dizer “não”? Quantas vezes iremos ter que dizer “não”? Com quantos “nãos” se fazem um estupro? Com quantos homens se fazem um estupro?

Certamente, depois do caso de estupro que aconteceu no bairro de Praça Seca no Rio De Janeiro, onde 30 homens estupraram uma adolescente, viver é uma tarefa difícil para as mulheres brasileiras. Falar sobre estupro é falar de uma cultura que perpetua e instiga comportamentos de ódio à mulher, de negação da existência da mulher enquanto uma pessoa dotada de subjetividades e vontades e, acima de tudo, é silenciamento e invisibilidade.

Falar de estupro é falar de homens, sim. É falar de experiências que afetam as mulheres todos os dias através de padrões de comportamento (re)produzidos por homens. O que precisamos falar é desde o xingamento na rua até uma violência física brutal, como o estupro. Todas as especificidades da violência contra mulher atuam de uma maneira tão bem elaborada e intricada que um estupro brutal é posto em dúvida e em questionamento por homens nas redes sociais, um comentário de legitimação da violência contra mulher não está muito longe do passo para cometer a violência contra mulher. Ideias não andam sozinhas, existem fatos que as impulsionam e ações que delas resultam.

Falar de estupro é falar de negação do outro e do processo de desumanização dos corpos femininos, que na cultura do estupro, são reduzidos a objetos. Nós, feministas, estamos falando de uma sociedade onde as mulheres são destinadas e ensinadas a dar prazer aos homens, onde são levadas a iniciar sua sexualidade desde cedo, onde a nossa sexualidade é (até nos discursos de liberdade sexual) pautada à partir do que se diz respeito ao homem, onde a finalidade da existência feminina é aquilo que ela pode contribuir para a felicidade masculina. Contudo, essa felicidade masculina é a negação da nossa existência, da nossa felicidade, das nossas vontades, dos nossos sonhos, dos nossos desejos e dos nossos sentimentos. Vivemos em uma sociedade onde nos negaram o direito de negar, o direito de existir enquanto sujeitas humanas e não objetos.

Tudo isso parece muito aos olhos de alguns e, parece exagero, aos olhos de muitos. Mas perguntamos, especialmente aos homens, como trinta homens estupraram uma adolescente? Seriam trinta homens, todos doentes? Uma mulher é estuprada a cada três horas no Brasil, isso significa oito estupros por dia, duzentos e quarenta estupros por mês e, em média, dois mil oitocentos e oitenta estupros por ano! Seriam todos esses homens doentes? E quando vamos falar dos casos não notificados, o número aumenta. E quando vamos falar das minúcias de como a cultura do estupro afeta a vida das mulheres, os casos se multiplicam. Você pararia de transar se uma mulher dissesse no meio do sexo, “não”? Você ficaria com raiva? Você entenderia? É disso que estamos falando, nós estamos falando de como a cultura do estupro está presente em cada detalhe do comportamento masculino. Estamos falando do seu pornô “gang bang”, por exemplo. Você vai deixar de assisti-lo? O quanto você está disposto a abrir mão para acabar com a cultura de estupro? Você está disposto a abrir mão dos seus espaços de poder?

O que fazer, é o que nós feministas estamos todos os dias buscando, mas nós sabemos que deixar de estar na luta nunca nos foi uma opção, porque nós somos estupradas e violentadas todos os dias. Viver com isso é uma luta. Nós desejamos muita força as mulheres vítimas de violência de gênero e da cultura do estupro, continuaremos lutando pela transformação radical das estruturas da sociedade. Continuaremos para que um dia o nosso “não” seja respeitado, para que um dia ele não precise ser evocado apenas em palavras, mas que já esteja subentendido devido à compreensão da existência do outro.

Núcleo Feminista Lélia Gonzalez
Coletivo Quilombo

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Os Limites da Inclusão Social – Por Yuri Brito*

OS LIMITES DA INCLUSÃO SOCIAL
*Por Yuri Brito

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Já é de conhecimento do mundo mineral que, nos últimos 13 anos, dezenas de milhões de pessoas saíram da extrema pobreza. Pra quem não consegue apreender a brutalidade sutil dessa afirmação, significa que dezenas de milhões de pessoas passavam fome – veja, não é “sentiam fome”, é passavam fome, tipo, dias, semanas, meses, uma vida inteira, sem uma refeição decente -, não tinham onde dormir, não tinham um documento sequer – e por isso não podiam ter trabalho formal, votar, firmar um contrato de aluguel, pedir um empréstimo, pedir socorro ao Estado.

Essas dezenas de milhões de pessoas passaram a comer, trabalhar, morar, ter documentos, votar, aliás, isso é importante pra entender por que os partidos que se lixavam pra esse pessoal não ganham mais eleições nacionais no Brasil e, pra acessar o poder político do governo central, vivem de chantagens e golpes de Estado. E, talvez o mais precioso, uma parte significativa dessas pessoas viu seus filhos e filhas acessarem a escola e, alguns,a universidade: os primeiros de sua família a entrarem na universidade. E uma parte significativa desses filhos e filhas formulou – isso, formulou, não “adotou” – novas linguagens, seja na reivenção da fala da favela, seja na sua mescla com o juridiquês, mediquês, sociologuês, antropologuês e outras falas da academia, mudou seu jeito de se vestir, os ambientes que freqüenta.

A esse processo emocionante, que enche meus olhos de lágrimas, chamam de INCLUSÃO SOCIAL. A maior da história do nosso país. Uma das maiores da história do planeta.

Eu não faço parte desse processo. Explico, resumindo: minha família passou por um processo de ascensão social uma geração antes de mim. E por isso, totalmente diferente deste fenômeno atual. Meus avós, quase todos analfabetos, todos vindos de pequenas comunidades rurais que vocês nunca ouviram falar, parte deles migrantes, trabalhadores rurais, um deles uma pessoa com deficiência física e cadeirante, do qual minha mãe cuidou desde a infância, até sua morte prematura, muito antes de eu nascer.

Meu pai, particularmente, foi para a “cidade” estudar com 10 anos de idade, morando numa pensão, e foi o acesso a educação formal que garantiu a ele a oportunidade de transformar em permanente o ganho da vida inteira do meu avô paterno, que tinha ascendido socialmente por ter aprendido a ler, escrever e fazer conta, além de ser extremamente honesto e trabalhador, num lugar onde quase ninguém sabia fazer essas operações. Meu pai cursou Administração (e depois Direito) numa Universidade privada que iria falir, mas que, pela luta dos estudantes da época, foi estatizada e se tornou a Universidade Estadual de Santa Cruz. E passou num concurso público, no qual que se inscreveu no dia em que foi buscar seu diploma.

Assim, tive uma vida muito melhor que a de meus pais e avós. Eles eram do tempo que precisava de muita, muita sorte pra subir na vida. O que aconteceu com eles era como ganhar na loteria.

Mas uma coisa me aproxima dessa geração que arrombou as portas das universidades. Eu sou negro.

Eu descobri isso quando tinha 11 anos e resolvi deixar meu cabelo crescer. E ninguém me tratou com a mesma deferência que o meu querido amigo Daniel, ruivo, simpático, charmoso, atlético e até hoje quase um galã de novela. E branco.

Por um tempo eu achei que a questão social me afastava mais dessa geração do que a questão racial me aproximava. OK que as vezes a polícia ou seguranças me seguiam, perguntavam pra pessoas brancas que estavam comigo se “estava tudo bem”. OK que já fui atacado por pessoas num carro que tentaram me arrastar pelo cabelo só por que, bem, se eu tenho o cabelo desse jeito eu devo merecer. OK que passei o ensino médio inteiro como sendo um dos caras mais esquisitões do colégio por vários motivos mas, curiosamente, isso se materializava quase exclusivamente em comentários, brincadeiras e – o meu limite da paciência – o toque no meu cabelo.

Mas tudo isso parecia pouco com a violência brutal a que estavam submetidos meus irmãos e irmãs de cor que ainda lutavam para ascender socialmente. Minha cidade, no interior da Bahia, um ano depois que fui embora de lá, ganhou o “prêmio” de cidade mais perigosa para adolescentes do Brasil. Adivinhem: negros. Mortos aos montes. Eu não fui ameaçado por isso – ou pelo menos acho que não fui. E é disso que estamos falando quando falamos de racismo, e isso é o mais importante que tem pra se falar. Ninguém ascende socialmente se for morto, tiver seus pais, cônjuges e filhos mortos.

Ainda assim… isso não me fez branco. E o mundo me lembrou e lembra todos os dias disso. O mundo me lembrou disso hoje. De um jeito simples – não foi nem de longe o racismo que mais me doeu na vida. Mas me incendiou uma reflexão que preciso compartilhar.

Lá estava eu pagando uma conta de cartão numa loja de departamentos, num shopping de Salvador que resolveu se renovar pra ser mais chique. Mais arrumado do que costumo andar, de calça, tênis e uma camisa do coletivo que faço parte, Quilombo. E chega uma senhora, loira, uns 50 ou 60 anos, e, ignorando completamente minha presença, pergunta para a atendente se o caixa está livre.

Primeiro, não achei que ela estava falando com a moça que simpaticamente me atendia. Até ela dizer “Não, moça, to atendendo ele” e ela se virar e ir embora de cara amarrada. Chocado, só pude dizer a atendente: pois é, só ela tem dinheiro pra comprar aqui. Pelo visto eu não posso ter.

É disso que quero falar, aliás: a inclusão social tem limite, que eu conheço muito bem, na minha vida toda. Ela não impediu que continuassem matando pretos nas favelas. Mas, além disso, ela tem um limite na sua própria natureza.

É lógico que ter dinheiro no bolso faz toda a diferença no nosso mundo. Abre portas, oportunidades, nos tira do sufoco da miséria pra comer carne, feijão e arroz ao invés de ovo e farinha. Mas não nos faz, nem nunca nos fará, iguais aos brancos. Primeiro, por que dinheiro não é capital. Capital é poder e dinheiro não. Mas não estou falando de economia – embora isso seja importante também.

Não nos fará por que o mundo do dinheiro, do consumo, do open-bar e all-inclusive, do camarote e do acesso pago, das roupas bacanas, do cinema, dos livros, da intelectualidade, dos cafés gostosinhos, dos restaurantes arrumadinhos, das repartições públicas, da docência universitária, da pesquisa científica, do poder político, tudo isso é do mundo social, mas foi feito pra branco ocupar. Não é mentalidade individual de quem está lá, apenas. É uma mentalidade institucional, que organiza as pessoas para pensarem e agirem assim, negando direitos, serviços e acesso com base no fenótipo e na ascendência familiar.

O dinheiro não compra as instituições. Ou melhor, compra, se você for branco. Por que se você for negro, vai ter de lidar com o dilema que eu, as portas de me formar, vivo: será que vou ter de cortar o meu cabelo, elemento definidor da minha identidade, pra poder passar numa banca de mestrado, numa entrevista de emprego ou numa seleção de concurso pra docente universitário? Vou ter de pagar um preço que é, para minha subjetividade, análogo a cortar uma mão, em nome de uma “inclusão social” que em tese já foi concluída pela geração dos meus pais?

Aliás, um preço que eu posso até pagar, mas não vai apagar o racismo da minha vida. Não vai me fazer deixar de andar sobre o gume afiado da raiva, frustração, impotência, tristeza e da depressão frente a forma como o mundo me trata – alerto, uma das maiores causas de mortalidade de jovens negros é o suicídio.

É preciso combater a ilusão que já virou senso-comum, mas que foi formulada na academia por Florestan Fernandes – a quem respeito muito – de que o avanço da organização da sociedade de classes faria o racismo tornar-se disfuncional e desaparecer (não vou nem falar do mito da democracia racial chocado por Gilberto Freyre). Pois bem: engordar a classe trabalhadora (negra) e a burguesia (branca) no Brasil não fez isso, querido Florestan. Por motivos que você mesmo traduziu: o racismo é funcional para manter privilégios sociais dos indivíduos de uma classe que não tem como se reproduzir apenas pela dinâmica econômica. Para que os poderosos (brancos) continuem sendo poderosos, e os demais continuem, mesmo que melhor de vida, subjugados.

Stokely Carmichael e Charles Hamilton jogaram luz no fato de que a mácula do racismo faz simbiose perfeita com as instituições. O racismo institucional, assim, é o projeto de transformar aquela funcionalidade que o racismo tem em um mecanismo impessoal, invisível e inescapável de segregação que se torna parte da missão das instituições sociais em que vivemos. E Kimberle Crenshaw me ensinou como há interfaces importantíssimas entre raça, classe, gênero e mais outros tantos aspectos que nos compõe como seres humanos, e igualmente esses fatores toldam as instituições que regulam nossa vida.

Desculpe, pessoal. Eu não quero ser incluído nessas instituições.

A idéia de inclusão social herdou das noções de “assimilação” e de “integração”, outras palavras-chave da política racial brasileira, a pressuposição de que é a pessoa negra que tem de se movimentar na sociedade para produzir efeitos positivos para si. Isso tem um duplo efeito deletério: primeiro, a idéia de que se trata de processos atomizados, individuais, familiares ou, no máximo, de classe social, arrefecendo uma solidariedade que é muito material entre os que já sofreram racismo. Segundo, a idéia de que as instituições da sociedade não precisam ser reformadas para atender às demandas dessa população historicamente excluída e esmagadoramente negra, e sim essa população que tem de ser “reformada”.

E essas duas idéias estão erradas.

A inclusão social é a ascensão de um povo. Subjetiva e objetivamente, somos um povo. E precisamos construir os mecanismos necessários para que essa idéia, já presente no nosso cotidiano, tome forma de projeto político, de transformação da sociedade sob a ótica de uma população (aliás, de um conjunto de populações, pois nem só de raça vive o povo, viva a querida Crenshaw) que precisa ter voz própria, representação política própria, formas próprias de sociabilidade e socialização, linguagens próprias, e principalmente, amor-próprio. Isso em nada prejudica quem não faz parte de nós, aliás, avalio que esse projeto pode abarcar, no médio prazo, o conjunto da sociedade, pois falar só de/pra nós não vai resolver nosso problema.

E a inclusão social não resolve o problema das instituições. E esse problema é central. A universidade é uma máquina de formar brancos, e a presença maciça de negros nela vai dar curto-circuito – ou na universidade, ou nas pessoas negras. Os shoppings, templos de consumo onde minha presença atrai olhares de desprezo e ódio, são uma ode ao capital que tem cor, nos vendendo aceitação por um preço alto e uma qualidade duvidosa. Os shows de bandas bacaninhas e artistas avant-garde ainda me fazem ser revistado com duplo cuidado pelos seguranças. Os aviões – como eles odeiam pobre e/ou preto em avião! – são um ninho de hostilidade que podem fazer um senhor humilde que mora em São Paulo e foi visitar sua família no Nordeste de avião não queira nunca mais entrar nele, mesmo que tenha dinheiro pra isso.

A política, a política, meus queridos irmãos e irmãs, bota lágrimas nos olhos e raiva no coração de uns poucos parlamentares, homens e mulheres negros que tem vergonha na cara e se dignam a tentar representar seu povo de fato, e são diariamente acossados, chamados de ignorantes, de “tia do Café”, de analfabetos. E os que não tem vergonha na cara, querendo pagar o preço podre de uma ilusória inclusão institucional, são “negros, porém inteligentes”. Eu já ouvi da boca de mais de um deles que não é raro ouvir “Você não deveria estar aqui, aqui não é seu lugar”.

Eu acho que temos mesmo de ocupar todas essas instituições. Não acho que negá-las resolve. Eu acho que temos de entrar nas universidades, nos shopping, nos shows, nos aviões, nos parlamentos, nos governos, nas carreiras de Estado, nas profissões liberais, os empreendimentos, e temos de entrar com força. No mínimo, pelo curto-circuito que isso causa nas cabeças das pessoas e no comando das instituições, que precisam vir a público justificar por que duas pessoas de iguais direitos estão sendo tratadas com tanta diferença. Embaralhar as regras do jogo que eles criaram, e isso só se faz jogando.

Mas não podemos NUNCA comprar a ilusão de que nossa entrada vai promover uma “revolução interna” nesses lugares. Não vai, em nenhum. Lá dentro as regras são as regras deles, e pelas regras deles nós perdemos sempre ou viramos “token”.

É preciso ir além do paradigma da inclusão social. Ela precisa estar associada a um programa de profundas transformações institucionais. Qualquer projeto político popular que se preze, que queira fazer mudanças reais no Brasil em direção a uma sociedade para todos os seus membros, precisa levar em conta a necessidade de mudar as instituições que governam nossa vida social e política.

E parte dessas instituições, aliás, não merece sequer ser transformada: merece ser derrubada, posta a fogo e ter suas terras semeadas com sal, como fizeram os brancos romanos com a africana Cartago, para que nunca mais de suas terras nasça a hera venenosa do racismo. E em outro lugar da sociedade, ergueremos novas instituições, moldadas para oferecer a possibilidade de um destino livre e atender as necessidades e anseios todo o nosso povo. Como se estivéssemos erguendo novamente as malocas dos quilombos que já guardaram nossas vidas.

E, assim, faremos Palmares de novo.

*Yuri Brito, 24 anos, é negro, do interior da Bahia e coordenador nacional do Coletivo Quilombo.

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“A gente aceita o amor que acha que merece”

Frase clichê, eu sei. Mas ultimamente tenho pensado muito sobre as relações afetivo-sexuais, sobre nós mulheres pretas e o quanto essa frase se reflete e materializa em nossas vidas.

Assimilamos desde cedo o padrão normativo de beleza, ao mesmo passo que internalizamos o quanto estamos distante do belo. Aprendemos que “para ser bonita mulher tem que sofrer” e nós nos submetemos a uma série de procedimentos invasivos e dolorosos que vai de alisamentos a intervenções cirúrgicas.

A busca pelo ideal de “mulher perfeita” para nós é tão violento que enquanto nos faz desgostar de nossa aparência alimentando um desejo de modificar nossos corpos, joga em nossa cara – em toda e qualquer tentativa – que por mais perto que a gente chegue, nós nunca seremos elas, não chegaremos “lá”.

O racismo é perfeito para o que ele se propõe, sobretudo para nós -pretas – que além de sofrermos com as amarras do racismo, somos vítimas do machismo nosso de cada dia. E o mito do “somos todas iguais” ou “no Brasil todo mundo é mestiço” – criado e proferido por aqueles/as que detêm uma série de privilégios nessa sociedade – nos é empurrado goela abaixo para silenciar nossas dores e naturalizar essas violências.

O mito da mestiçagem colabora com a manutenção do privilégios das/os brancas/os e faz perpetuar, em nossas mentes pretas, que o problema está sempre com a gente, o problema é a gente. E, não o racismo.

A naturalização dessas violências intensifica aquele “não-gostar” de nós sobre os nossos corpos, nos faz acreditar que nunca somos o suficiente e que é compreensível de que os/as outros/as não gostem de nós. Afinal, o que temos para dar é tão pouco se comparado àquelas outras, não é?

A conformação da sociedade brasileira sobre as raízes podres do racismo e patriarcado objetifica e hipersexualiza nossos corpos pretos, gritando para nós que aquela velha frase “branca pra casar, preta pra transar” ainda é lugar que ocupamos no imaginário de todo um povo.

Mas, o que isso tem relação com “aceitarmos o amor que achamos que merecemos“?

Toda essa trama racista maquiada de “democracia racial” que circunda e permeia nossas vidas se refletem TAMBÉM nas relações afetivas que construímos. E as mulheres pretas aceitam o amor que acham que lhes cabem. E digam-me, dentro dessa sociedade perversa de mente racista e machista, o que nos cabe?

O resto. O que der, o que vier. “Agradeça que alguém te quer“, ouvimos.

As pretas são as preteridas e isso não é novidade. Somos as últimas em sua lista, as que vocês ligam depois das 22h, somos as mulheres que vocês não dão as mãos em público, as que vocês não apresentam a família, somos o caso, a outra, mais uma, ou simplesmente não somos nada.

Mas aceitamos. Aceitamos esconder a relação, aceitamos as ligações de madrugada, aceitamos os insultos, aceitamos o amor meia-boca de uma relação fracassada, aceitamos ser mais uma na sua lista de conquista, aceitamos ser a outra enquanto a branca é a escolhida, aceitamos.

Aceitamos porque nos é ensinado desde cedo que somos pouco, que somos menos, que o bom é para os outros e pra gente… Pra gente é nada. E quando alguém legal aparece e nos ama como nós somos… Desacreditamos, duvidamos, “não mereço você“, falamos.

Ouvi de uma amiga que “as pessoas não sentem necessidade de ser gentis com mulheres negras“, e não sentem. Nós sabemos. Nós aprendemos a lidar com os maus-tratos, nós aprendemos a engolir os “nãos“. Nós agüentamos com sorriso na cara o amargo gosto da solidão. Nós resistimos.

E quem irá nos amar então? Que amor a gente merece?

O nosso. Nosso amor. Amemos umas as outras. Digamos nós para outras de nós o quanto somos lindas, o quão amáveis somos. Empoderaremos outras pretas com afetividade. Nós merecemos relações onde o afeto e o respeito estejam presentes e mostraremos isso respeitando e amando nossas irmãs, amigas, mães, colegas.

Devemos ser o amor que a outra preta merece. Feminismo é amor.

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*Lorena Pacheco é estudante do curso de Direito e atual Coordenadora Geral do Diretório Central dos Estudantes da UFBA.

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