Nota do Coletivo Quilombo sobre a morte do Líder Quilombola Binho

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O líder Quilombola Flávio Gabriel Pacifico dos Santos, 36 anos, conhecido por todos como “Binho do Quilombo”, foi executado com mais de 10 tiros, na manhã desta terça-feira (19/9), na cidade de Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador – RMS.

De acordo com informações preliminares, o assassinato brutal de Binho, aconteceu por volta das 9h, em frente à Escola Municipal Nova Esperança, em Pitanga de Palmares. Homens não identificados, a bordo de um veiculo branco, chegaram e dispararam vários tiros contra o líder quilombola.

O assassinato brutal de Binho acontece após diversas ameaças recebidas por ele, de pessoas que queriam acabar com o Quilombo Pitanga dos Palmares. As investigações precisam ser rápidas, para que esse crime seja punido.

Binho do Quilombo era casado e é filho da ex-secretária da Promoção da Igualdade Racial do município, Maria Bernadete Pacífico. O líder comunitário, além de músico, era um grande militante na luta pelas comunidades quilombolas, especialmente a de Pitanga de Palmares.

Neste momento conturbado e caótico da conjuntura política brasileira, onde a população sofre com retirada de direitos e com o agravamento dos problemas sociais que atingem principalmente as minorias sociais e étnicas, o Coletivo Quilombo se soma à luta contra a criminalização dos movimentos sociais e de suas lideranças, uma prova disso, é que casos como este vem acontecendo com mais frequência no nosso país, diante disso, precisamos garantir a vida daqueles que lutam por causas que transformam a nossa sociedade.

O Coletivo Quilombo manifesta pesar pela morte do companheiro Binho, e se solidariza com a Sra. Bernadete (mãe da vítima) e todos os familiares e amigos. Vale ressaltar que luta dele não será em vão! Não irão calar a voz dos movimentos sociais!

Binho Quilombola, Presente!

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Questões raciais: Do discurso do susto à personificação do racismo

por Paulo Gonzaga*

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Conversando com uma amiga e companheira de militância – Luize Campos – comecei a refletir sobre o que ela chamou de “discurso do susto”, que seria aquele discurso que vem sempre com um espanto ao ouvir alguma situação de discriminação e racismo. Como por exemplo, quem nunca ouviu as seguintes expressões: “o quê? como isso ainda existe no Brasil?”, “eu não sei como ainda existe racismo no Brasil?”, “como assim ele não foi aceito no estágio por conta do cabelo?”, “isto é um absurdo nos dias de hoje”…

Esse discurso do susto acaba carregando dois elementos importantes, o primeiro é a negação do racismo enquanto elemento estruturante das relações políticas-econômicas-sociais, o outro é a desresponsabilização de se ver dentro dos processos raciais no Brasil.
O primeiro elemento decorre de uma leitura (equivocada) de que o racismo opera apenas no âmbito individual/subjetivo e portanto deve ser tratado como algo pessoal. Se aquela pessoa é racista, a questão é apenas dela, porque a mesma não compreendeu o óbvio (não tão óbvio) que as pessoas possuem os mesmos direitos sociais independente da raça/cor.

Mas será que o racismo é uma questão individual?

É aí que vem o equívoco. O discurso do susto acaba negando que o racismo se expressa socialmente e organiza as relações de poder na sociedade. As pessoas não são racistas porque um belo dia elas resolveram achar que negros e negras são inferiores, que sua estética é feia, que não possuem almas, que sua carne é a mais barata do mercado e que somos atrasados intelectualmente. Pelo contrário, todos esses discursos foram/são construídos ao longo das nossa história e servem para manter a dominação e a exploração branca. Basta olhar qualquer marcador social (ou olhar para o lado) seja na área da saúde, acesso à educação, renda, direito à vida… poderemos perceber que nós negros e negras estaremos em desvantagem às pessoas brancas. Por isso, o racismo é institucional e peça chave para que a sociedade continue mantendo os privilégios brancos.

A partir do momento em que o racismo é trazido enquanto fenômeno individual, não há responsabilidade social sobre o processo de combatê-lo, pois a culpa são de algumas pessoas, e eu que não me percebo enquanto racista (tenho até amigos que são negros) não me vejo responsável em me perceber nas relações étnico-raciais e portanto, compreendo que o fim do racismo virá a partir do momento em que todas as pessoas se conscientizarem de que o racismo não é legal.

Não!!! As pessoas e instituições que detém os privilégios não irão abrir mão deles a partir de conscientização, isso virá através de muita luta, de muita ocupação preta nos espaços de poder, de reforma política que democratize a participação popular e de mobilizações nas ruas!

Todo poder ao povo preto!
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*Paulo Gonzaga é Psicólogo, Membro da Comissão Temática de Combate ao Racismo do Sindicato dos Psicólogos da Bahia e Militante do Coletivo Quilombo.

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Nem “Punhetaço”, nem o PL “anti-masturbação”: por uma alternativa feminista e anticapitalista!

Por Júlia Teixeira*

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Recentemente a proposta de Projeto de Lei do deputado federal Marcelo Aguiar (DEM/SP), que obrigaria as operadoras a criarem um sistema que filtre e interrompa o acesso dos usuários à conteúdos pornográficos ou relativos a sexo virtual e prostituição, gerou diversas controvérsias. O deputado federal, cantor de música Gospel, defende seu projeto afirmando que especialmente os jovens estariam viciados em pornografia e masturbação. Não demorou muito para que diversas pessoas se aglomerassem contra o projeto, elaborando protestos como o “punhetaço”.

Enquanto feministas, diríamos: nem “punhetaço”, nem o PL “anti-masturbação”. Assim como quase tudo na sociedade brasileira, a narrativa sobre a sexualidade está em disputa. O deputado Marcelo Aguiar, evangélico e conservador, mergulhou em uma discussão que não somente os evangélicos e conservadores fazem, mas as feministas também, apesar dos referenciais serem extremamente distintos. Enquanto representante e reprodutor do pensamento conservador, Marcelo Aguiar, adota uma postura repugnante ao colocar como cerne do problema a masturbação e o exercício da sexualidade. Por outro lado, o “punhetaço” traz consigo uma carga extremamente falocêntrica e heteronormativa, não muito distinta, inclusive, do posicionamento de Marcelo Aguiar. Afinal de contas, nos perguntamos, masturbação para quem? Exercício livre da sexualidade para quem? Se por um lado, Marcelo Aguiar almeja à volta ao “sexo tradicional”, na realidade, reforçando a crença de que a sexualidade deve ser exercida apenas nos moldes da instituição matrimonial heterossexual e machista. O “punhetaço” chove no molhado ao utilizar um título centrado no falo, na masturbação masculina, na heterossexualidade e na medíocre virilidade do macho.

Nós queremos uma alternativa feminista ao discurso conservador de Marcelo Aguiar; nós queremos qualificar o debate sobre sexualidade e pornografia. A educação sexual que a maioria dos jovens recebe é pouca ou nenhuma, as primeiras referências de uma grande parte da juventude é a pornografia. Entretanto, a indústria pornográfica é um dos pilares para a perpetuação da cultura do estupro: humilhações, xingamentos e violência sexual fazem parte desse asqueroso braço bilionário do capitalismo ocidental. A pornografia coloca as mulheres enquanto objetos sexuais, hipersexualiza e fetichiza o sexo lésbico, circula vídeos em que as mulheres são de fato estupradas e violentadas, divulga o “extreme gang bang” e “rosebud”, entre outros. A questão central é que na pornografia a sexualidade masculina pressupõe crueldade e degradação, enquanto a sexualidade feminina pressupõe subordinação e anulação. Podemos aqui citar o famoso caso de Linda Lovelace, famosa atriz pornô e símbolo da revolução sexual em 1970, revelando anos depois que tudo não se passava de uma grande farsa. Linda era torturada e espancada. Nós estamos falando de uma indústria onde a expectativa de vida de uma estrela pornô é de 36 anos. Nós estamos falando de uma indústria que, atualmente, coloca as atrizes pornôs na invisibilidade e que produz e reproduz o papel da mulher enquanto objeto sexual. Nós estamos falando de uma indústria bilionária que lucra em cima da exploração e da violência sexual.

É importante evocar estudiosas como Heleieth Saffioti que, sabiamente, demonstrou que a violência masculina contra a mulher integra a organização social de gênero na sociedade brasileira. A dominação dos homens sobre as mulheres engloba um conjunto de ideias e, sobretudo, estruturas de poder. Nesse sentido, a violência enquanto elemento material atua como controle social reverberando no campo ideológico. A violência, nesse caso, é extremamente eficaz pois é onipresente: quando não é um fato concreto, é uma ameaça/possibilidade. Em muitos casos, pessoas diriam que há consentimento da mulher quanto a sua subordinação. Segundo Saffioti, o problema não está posto a nível individual, que é esporádico e pontual, mas a nível estrutural porque é parte da organização social de gênero. As posições ocupadas entre homens e mulheres são hierárquicas e antagônicas, o conceito de consentimento pressupõe que ambos falem a partir de uma posição de igualdade. Não existe consentimento onde existem assimetrias e desigualdades tão profundas, trata-se de uma correlação de forças onde raramente a mulher é beneficiada.

Nós, feministas, queremos discutir seriamente sobre a educação sexual que a juventude não recebe, e quando recebe é através da pornografia. Precisamos discutir sobre como o machismo, a LGBTfobia e o racismo estão necessariamente implicados na formação da sexualidade da juventude brasileira. Não queremos construir movimentos que reforcem o machismo e a heteronormatividade, esquecendo que muitas mulheres ainda não conhecem seus corpos, que muitas lésbicas e mulheres bissexuais ainda são reduzidas a fetiches masculinos, que as mulheres negras ainda são hipersexualizadas e, esquecendo, acima de tudo, que vivemos em um Brasil onde uma mulher é estuprada a cada 11 minutos. Nós queremos discutir gênero e sexualidade nas escolas, nós queremos mais propostas como a “Escola Livre”, onde a pluralidade de ideias e a discussão crítica seja praticada. Nós queremos construir propostas em que a educação seja emancipatória para juventude e para as mulheres.

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* Júlia Teixeira é Estudante de Ciências Sociais na Universidade Federal da Bahia, Militante do Núcleo Feminista Lélia Gonzalez – Coletivo Quilombo e Coordenadora de Mulheres do Diretório Central dos Estudantes da UFBA.

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RECORTES E COLAGENS: apontamentos de método e estratégia para um partido da classe trabalhadora brasileira

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Foto: Milena Abreu, Labfoto.

O Partido dos Trabalhadores emerge como uma importante síntese na década de 80. Dos escombros da ditadura e da terra arrasada em que a esquerda se encontrava, surge a ideia de construir um partido da classe trabalhadora, com a ideia de organizar prioritariamente a luta social, sendo um polo acumulador das suas multiplicidade e pautando reformas estruturais em direção à superação do capitalismo.

Porém, observando a história do PT e do Brasil depois do final violento do ciclo de governos petistas, a partir de um golpe parlamentar, emerge uma questão: quais caminhos nos trouxeram de lá até aqui? Dos manifestos dos anos 80 até o saldo final dos governos petistas, o que se alterou, tanto na realidade do povo, quanto na própria esquerda? Há uma miríade de respostas tão possíveis quanto verdadeiras. Mas é importante apontar um problema que tem sido pouco discutido.

Mesmo sem as reformas estruturais, os governos petistas alçaram mudanças nas classes sociais com uma nova camada ascendente de trabalhadores, mas houve um esvaziamento na disputa subjetiva desta classe. A mera reprodução de políticas que melhoram a vida das pessoas viu-se marginalizada frente à ferocidade do capitalismo em crise.

Isso se dá porque a desigualdade e a miséria são funcionais na reprodução da sociedade brasileira. Sem reflexão sobre o seu sentido, a “inclusão” teve uma consequência: deu uma pane geral no sistema.

A massa ascendente se viu travada por mecanismos estranhos à suposta meritocracia, que disfarça o privilégio dos ricos, como o racismo e machismo institucional. Mesmo com graduação superior, se viam subalternos aos filhos da elite, com menor salário e status. Não se enxergavam como parte da classe média tradicional como era prometido pela ideia de “Nova Classe Média”. Quem oferecia sentidos e interpretações para a vida e a ascensão contínua eram, muitas vezes, líderes religiosos conservadores ou membros da elite tradicional que negociam poder e prestígio por de lealdade de classe.

Já os setores médios viram privilégios ameaçados, quando aqueles se recusam a cumprir o papel que lhes era reservado. O trabalho doméstico é a expressão mais bem acabada disso: não apenas aqueles encontravam cada vez mais dificuldade de bancá-lo, como ainda viam seus filhos disputarem a universidade e o mercado de trabalho com filhos das suas ex-domésticas.

A elite tolerou a disfunção enquanto garantia seus lucros. Mas, com a crise econômica mundial, puxou o pino da granada: detonou uma poderosa narrativa, centrada numa moralidade oca e na demonização da esquerda, galvanizando o medo da perda de privilégios dos setores médios e trouxe para as ruas um movimento de massa que correspondia à aliança entre mídia, partidos conservadores, elites econômicas ultraliberais, castas corporativas e fundamentalistas religiosos.

A esquerda foi incapaz de produzir uma interpretação que desse sentido e consequência às mudanças trazidas pelo seu governo, para estimular forças sociais progressistas renovadas. E, ao mesmo tempo, a falta de força era a justificativa sempre apresentada para não empreender reformas estruturais.

Um apontamento pode ser feito no sentido de dissolver esta contradição. Ele exige uma renovação das forças sociais organizadas da classe trabalhadora. Reafirmando a necessidade das reformas estruturais, mas apresentando um método de construção da força necessária para realizá-las.

O centro é entender que não há uma classe trabalhadora abstrata, sem corpos e identidades. Parece óbvio, mas muitas formulações da esquerda esquecem que a maioria da classe trabalhadora é formada por negros e negras; a maioria da população negra é de mulheres; a maioria das mulheres são trabalhadoras pobres. E assim poderíamos prosseguir, percebendo uma amálgama estrutural entre raça, classe e gênero.

Não são pautas meramente identitárias. São também estruturais, atuam em conjunto e sobre as quais precisa-se agir coordenadamente. Não é valorizando “setoriais”, recortes de raça e gênero, que vamos lidar com esse fato. O método proposto é, portanto, o contrário deste. Ele implica em ter, em todas as formulações programáticas e estratégicas, uma lente que exponha que a classe se expressa em corpos – majoritariamente, negros e/ou femininos.

Reconhecer que a limitada, mas importante, ascensão social teve como ponta de lança mulheres negras que chefiavam suas famílias, seguidas outras mulheres e por homens negros, e que alcançavam não apenas a ascensão econômica, mas a autonomia social. E é daí que brotam forças importantes, ainda que longe do centro do poder, reafirmando essas identidades e lutando por pautas que a esquerda tradicional muitas vezes sequer enxerga.

É preciso construir mais que uma narrativa, uma estratégia, um programa ou símbolos que levem em conta este fato inegável. E para isso, exige-se um processo de colagem, um método que consiga sintetizar estas demandas estruturais na renovação dessas formulações. Que traga ao centro, pautas que mobilizam, mas que sempre são diminuídas em torno de pautas “neutras”, mas que servem apenas à reprodução de um poder adulto, branco e masculino – como é o poder burguês – dentro das próprias organizações da classe trabalhadora.

A colagem, ao contrário do recorte, entende que toda auto-organização de negros e negras e mulheres precisa resultar em processos de hegemonia. E para isso, precisa construir pontes com outros elementos identitários – sexualidade, geração, regionalidade – e formular política para além do seu “setor”. Não haverá transformação alguma se a classe trabalhadora não tiver instrumentos que possam se reproduzir espelhando a vida real dela, e não a da burguesia.

Este método não implica em desconsiderar as contrapartes não-negras e não-femininas da classe trabalhadora. Apenas que na construção dos nossos instrumentos, devem sempre ser considerados apontando para uma hegemonia ordenada de maneira oposta à da sociedade – que põe mulheres negras pobres embaixo na pirâmide e homens brancos e ricos no topo. Significa abrir espaço para sujeitos que são o motor da classe, e não apenas para as suas capas superiores, mais bem remuneradas e reconhecidas socialmente.

Especificamente, sobre o PT, aplicar este método implica em reflexões de três ordens:

Simbólica: é preciso haver uma política de reconhecimento que implica na formação de quadros e na produção de uma estética que dialogue com a própria identidade da classe trabalhadora brasileira. Que incorpore, mas vá além da identidade de peão, evocada com tanto sucesso pelo ex-presidente Lula, e exprima também a composição e as mudanças na classe trabalhadora neste último período, permitindo a ela se enxergar no seu instrumento.

Programática: É preciso perceber uma série de demandas que tem sido secundarizadas, mas que são essenciais na vida do povo e na transformação estrutural da sociedade, e sem as quais não haverá diálogo com boa parte da classe trabalhadora e do povo pobre. Por exemplo, nenhuma melhora na vida econômica de uma família ou comunidade supera a perda de um pai ou filho, geralmente negros, para a violência do Estado, que as desorganiza emocional e financeiramente. Elementos como este precisam contar com maior prioridade e formulação programática.

Estratégica (com consequências organizativas): Não se pode viver da ilusão de um país de classe média e ricos. Estas são classes sociais com um estilo de vida que depende da existência da miséria. O caminho para a superação do capitalismo passa por construir um novo tipo de vida, pautada em outros valores que não o consumo, a acumulação de riquezas e o prazer sustentado no sofrimento alheio. As reformas estruturais precisam estar aliadas a construção de novos valores que propiciem condições subjetivas para realizá-las, à qual serve bem a efetiva incorporação destes sujeitos no processo de direção partidária, o estímulo à formação de redes militantes e a organização de uma frente ampla e diversa que abarque todas as organizações que contribuem para esta reflexão.

Ouvimos, por anos, que não havia correlação de forças para avançar mais. Que certas reformas e rupturas não eram viáveis, pois não havia força suficiente para bancá-las.

Pois bem, aqui está uma contribuição para um método de construção desta força. Ele exige direções políticas e símbolos mais negras, femininas e diversas. Exige um programa que discuta economia e antirracismo, política social e feminismo, educação e diversidade, como se fossem uma coisa só – porque na vida do povo, efetivamente são. Falar só da classe, só da pobreza, como se não elas não se expressassem em corpos reais, é continuar reproduzindo em nós as ideias de nossos inimigos, da mesma forma que falar de identidades sem lembrar das estruturas articuladas é fazer o mesmo por caminho diverso.

Acima de tudo, temos de dizer que lutamos por uma nova sociedade. Dizer a todas as pessoas que, para melhorar de vida, não será preciso calçar as botas do opressor. E assim contribuiremos para reavivar os nexos vivos entre partido e movimentos sociais, sobre o que muito se fala e nem tanto se faz.

Ao produto desse método, ofereça-se um nome que aponte para esta transformação. Se das mais brutas veias do nosso povo, para tomar o poder, então a chamaremos de Revolução de Pés no Chão. E sem ilusões, isso não se fará por outros se não por nós mesmos. Não adianta pedir licença a quem não quer ouvir.

Vem aí o Congresso do partido da classe trabalhadora brasileira, e nele é preciso construir força própria a partir do diálogo, atingindo a todas as correntes internas, grupos, movimentos, etc. Sobretudo, aos petistas que independentemente de suas posições anteriores, compreendem que é preciso oferecer um caminho, um método de construção da força que precisamos para imprimir a derrota última à burguesia brasileira, sempre ajoelhada ao imperialismo.

Não há alternativa possível. A nós, só cabe o desafio de vencer.

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* Yuri Brito, é graduando do curso de Ciências Sociais, na Universidade Federal da Bahia, 2º Diretor de Combate ao Racismo da União Nacional dos Estudantes (UNE), militante do Coletivo Quilombo e da Esquerda Popular Socialista (EPS), tendência interna do Partido dos Trabalhadores (PT).

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“Me vê a conta, por favor!”

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Por Lorena Pacheco*

E, quando você se senta, o Chefe vem a sua mesa apresentar o cardápio e explicar como ele foi pensado e qual o seu modo de preparo. Então, você se lembra que num livro de receitas de um desses culinaristas-formados, esse tal prato-foda-e-caro que você escolheu é feito de maneira diferente.

O que você faz?
Confia na experiência do Chefe e espera sua comida ou vai lá dizer que o que ele tá fazendo está errado o culinarista-formado disse outra coisa?

Parece ridículo, né?
Mas por que as pessoas insistem em questionar a legitimidade do discurso das mulheres negras sobre a vida delas, sobre o seu dia-a-dia se baseando em livros de não-sei-quem lá da Europa? Na moral, me poupem!

Eu não preciso nem conjecturar muito pra saber que a imagem formada para o Chefe foi a de um homem branco. E a imagem para o culinarista [PASMEM] também foi. Será que o fator raça e gênero tem algo a ver com o não-enfrentamento? Será que o poder que um macho-branco passa só por suas características é o suficiente para ser aplaudido e legitimado por tudo o que faz?

O restaurante é a sociedade.
Os esquerdomachos são os clientes.
As pretas são as Chefes.

Escutar o que as mulheres pretas têm a dizer é um navegar imenso em conhecimento [as vezes acadêmico, as vezes não], é buscar a empatia a partir de outras perspectivas, é sobretudo demonstrar respeito por aquelas que vivem o amargo de (sobre)viver numa sociedade patriarcal, racista e LGBTfóbica.

Sentem-se a mesa.
Provem os frutos podres de nossa realidade cruel.
Degustem. Engulam.

Os livros na estante são como as facas que estamos aprendendo a usar a nosso favor. Angela Davis, Lélia Gonzaléz, Bell Hooks, Audre Lorde, Chimamanda, Djamila Ribeiro, Sueli Carneiro. E seremos nós as referências acadêmicas de nós mesmas, e seremos nós a falarmos sobre nossa realidade. Porque nós sabemos o quanto foi duro chegar até aqui e o quanto é pesado nos mantermos de pé.

Gostando ou não, vocês vão pagar a conta!

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*Lorena Pacheco é graduanda do curso de Direito na Universidade Federal da Bahia, tem 21 anos, militante no Núcleo Feminista Lélia Gonzalez, Coletivo Quilombo e Esquerda Popular Socialista (EPS), tendência interna do Partido dos Trabalhadores (PT).

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